Furacões sentimentais e sociais

Em outubro de 2017. No mês de desgostos. Eu era um escritor de gaveta apesar de ter meus textos literários publicados em dois livros coletivos. Minhas nadadeiras em um mar de pepinos de diversas naturezas eram perpétuas. Eu estava concentrado no meu doutorado e em outras coisas; praticamente desplugado de minhas ilhas sentimentais e sociais. Aliás, foi um descuido brabo, equivalente a gritos de fome de leão no sentido de ausência de atenção.

A dois dias do seminário voltado pra literatura em que eu ia apresentar meu trabalho, fruto das leituras sobre testemunho e memória literária, recebi dois vídeos da minha namorada: chegou a hora de ficarmos apenas amigos e outros blábláblás referentes ao motivo da sua decisão de decretar o fim do namoro. Foi uma pedra e tanto para mim. Não, uma rocha mesmo. Não tive coragem de responder aos seus vídeos em razão de ter estado concentrado na minha viagem.

Dois dias se passaram, com uma grana bem curta, antes de comprar a passagem ao destino, por onde eu participaria do referido seminário, tive de esperar o sinal verde, para saber se eles iam atender minha solicitação para que eu ficasse por dentro do decorrer das palestras e da roda de trabalhos. Faltavam vinte e cinco minutos pro ônibus que eu pegaria partir. Finalmente chegou o e-mail afirmando a disponibilidade do recurso comunicativo, e fui como Papa-Léguas até a rodoviária. Com a passagem comprada na mão, desci correndo do segundo piso ao box seis em que o ônibus pretendido estava.

Para renovar meu fôlego, cai no sono. Só que não. Durante a estrada, eu trocava vídeos com as intérpretes de Libras pelo Whatsapp com o intuito de contextualizá-las do meu trabalho. A minha apresentação estava marcada para às 16h. Eu estava chegando em Porto Alegre-RS, mas a esta exata hora. Assim que desci do ônibus fui tomar um táxi até a PUC-RS. Quando entrei na PUC-RS, perguntei ao segurança onde ficava o tal prédio em que o seminário estava sendo realizado. Fui correndo pelas escadas até o terceiro andar. Fiquei com a impressão de que fui treinado para escapar de incêndios pela agilidade que eu usei pra subir as escadas. Encontrei a sala, entrei e abri meu notebook. As duas intérpretes de Libras já estavam prontas fazia um tempo. A apresentação do meu trabalho foi realizada com êxito. Houve perguntas pertinentes e elogios em relação à minha pesquisa. O planejamento, mesmo que de alto risco, deu certo. Persistência fazia parte do meu vocabulário. Após a roda de trabalhos fui ao meu hotel. Morto de cansaço. Com uma baita vontade de tomar uma ducha bem gelada.

Sem falar com a minha namorada ainda, com exceção de que postei o registro da minha apresentação no Facebook, para minha mãe ficar tranquila. O porquê de não falar com a minha namorada era tratado com cautela que decidi adotar para não ficar arrependido depois.

No dia seguinte fui ao seminário. Foram três dias acadêmicos. Na minha última noite em Porto Alegre, eu estava sentado na poltrona vendo um filme na tv, e recebi um whatsapp da minha namorada: boa noite, querido. está tudo bem?

Sensibilizado com a sua mensagem, respondi que sim e tal.

Diante de meus problemas amorosos e pessoais, metaforicamente, teve uma luz em minha cabeça, uma ideia. Vinda da minha namorada, por assim dizer de forma indireta.

Praticamente decidido ficar com ela pra sempre, enviei uma resposta pra ela: estou com saudades de ti.

Depois que voltei pra minha cidade logo restabeleci tudo o que estava em desordem. Se não fosse por ela, eu não seria capaz de orquestrar meus problemas. Ela conseguiu acabar com o mês de desgostos. Cumplicidade e determinação se traduzem em sucesso e prosperidade. O negócio de agora em diante era tentar valorizar minha namorada. Tornei-me outra pessoa. Praticamente disposto a alterar meus movimentos cotidianos, dividindo minha atenção com todos, pessoais, profissionais, financeiros, familiares, incluindo a mulher ao meu redor. Antes eu não conseguia dar atenção a ela porque a minha cabeça estava cheia de problemas e tarefas, o que sugeria que eu estivesse desorientado. Graças à luz dada por ela, encontrei uma solução, que muitos não conseguiriam imaginar, para aquela desordem sentimental e social.

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