Diadosurdo? Surdodioado? Dosurdodia? Dia do Surdo?

Por Diogo Madeira

 

    O jovem boêmio acabara de ter uma ideia, pra escrever sobre um surdo perambulando pelas ruas, por causa daquele dia do surdo (não surdo-mudo!). Ele foi correndo até o seu apartamento. Antes de sentar à sua máquina de escrever ele sacava três latas de cerveja da sua geladeira, que lembra uma dos anos 50 pelo design. O papel que ele havia começava a ser tocado pelas letras de metal, acarretando em barulhinhos proletariados:

  Um surdo, de 28 anos, aparentemente moreno, para vocês saberem, era super comunicativo. Ele não parava de render boas conversas em bares boêmios, o que era considerado o querido do bar pelas pessoas que frequentavam os mesmos bares que ele. Não era unicamente, que, ele usava a técnica estratégica: leitura labial. Mas também se expressava (muito bem, fala sério!!) tanto na escrita quanto na língua de sinais (eu quase ia escrever linguagem de sinais, o que era incorreto para os que atuam na área de surdez ou linguística). Mas ele se sentia orgulhoso de ser surdo? Ele não se manifestava a respeito. Mas dava pra notar que ele fazia questão de celebrar o dia do surdo sim.

  Mas que este dia não era daqueles idiotas, pois foi baseado em movimentos revolucionários ou sócio-culturais pelos surdos militantes, assim como o dia da mulher, para vocês entenderem melhor. Ele nasceu surdo conforme os médicos diagnosticavam e estudava em melhores escolas graças à educação precisa dada pelos seus pais. E por ser notado como surdo bilíngue (em Língua Portuguesa e Libras) sempre figurava em primeiros lugares em concursos literários – tanto em língua escrita quanto em língua de sinais, pois ele era craque em redação (em língua portuguesa!) segundo seus amigos mais próximos. Ele baixava a bola de que a língua de sinais prejudicaria a língua pátria porque entendia que era necessário sempre deixar a sua mente afiada, ou seja,  via o bilinguismo como essência linguística (embora não desnecessariamente obrigatório) para surdos. Sem falar que ele conquistava muitas mulheres surdas – sinalizadas, oralizadas, bilíngues e até implantadas! Segundo o relato dos seus amigos mais próximos, ele era plenamente aberto para dialogar com pessoas que possuíam ideologias diferentes em relação à surdez.

    De acordo com a confidência de uma amiga dele (mais íntima), ele chegava a dormir muitas vezes com uma mulher implantada, que era casada, em certos hotéis logicamente boêmios. Todavia, havia certa divergência entre eles especialmente sobre o dia do surdo. Ela dizia que era irrelevante o dia do surdo, visto que não tinha aquele orgulho (de ser surdo). Aquilo deixava o jovem surdo pensativo, por bom tempo, ou melhor, muitos sois posteriores, imaginam (eu mesmo falo!). A despeito disso, ele concluía que o dia do surdo era daqueles que foram brotados das lutas tristes e estressantes, aquelas coisas de revolução. Quem que achava o dia do surdo como partido daquele fanatismo surdo tinha seu direito de expressar o que pensava sim. Existia diversidade na surdez sim, no entanto, não era preciso desprestigiar o mesmo dia, uma vez que sempre que surgia uma nova cultura – no caso da cultura surda, por exemplo. Afinal, era  merecidamente lembrado o dia do surdo. Quando? Quando? Quando? Dia 26 de setembro!! Ou melhor, Dia do surdo na primavera! Este dia era direcionado aos que não escutavam, ou melhor, aos que APRECIAVAM a revolução surda. Esclarecendo melhor, este dia foi estabelecido quando a primeira escola de surdos foi fundada no mesmo período no Brasil, o INES – Instituto Nacional da Educação de Surdos.

    Voltava-se ao assunto do jovem surdo. Teve um momento em que ele e seu amigo (que era surdo oralizado) em um bar discutiam o dia do surdo, e eles apresentavam algumas desavenças a respeito da relevância de celebrar o mesmo. Aquilo para o jovem surdo era normal, pois cada um tinha seu ponto de vista. Ponto de vista. Não obstante isso o dia do surdo se encontrava lembrado constantemente por muita pessoas, por entenderem como o fruto das lutas surdas. Em outro instante o jovem surdo dormia com uma surda bilíngue. De repente, enquanto o sol nascia, eles estavam explanando sobre o dia do surdo e achavam interessante o fato de o dia do surdo ser celebrado quando o dia 26 de setembro chegava. Porque eles foram instruídos pela educação diferente para enxergarem por outros ângulos o mundo dos surdos (eu detesto este termo, mas…). Prestes a ser encerrada esta história, o jovem surdo participava ativamente da comunidade surda e, no entanto, ao passo que, inclusive da majoritária. Ele publicava muitos livros. Ele não sabia o que era impasse, obstáculo, barreira, aquelas coisas ignorantes que muitas pessoas viam.

    Ok, mas e o orgulho surdo? Ele entendia que era mais um orgulho. Ou seja, ele não ponderava a surdez como doença, sim, ao menos no seu entendimento, a diferença linguística e no mais nada.

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As letras de metal paravam de cutucar o papel repleto de manchas literárias.

    O jovem boêmio, cansado, decidira dar uma pausa ao seu trabalho. Foi taxado por uma mulher que estava no quarto dele, mesmo com o tom perceptivelmente diferente mas lindo (pelo menos) para ele: Meu amor, se está cansado, queres que eu faça uma boa massagem em você? Ela falava e sinalizava ao mesmo tempo. Aceito! Ele respondia sinalizando pra ela. A sua mulher era surda, ou melhor, surda bilíngue. Antes de iniciar a cena romântica, ele não deixava de sinalizar uma coisa importante à sua mulher: Hoje é dia 26 de setembro, certo? Feliz dia do surdo! Ela sorria e ainda falava: … ob… obrigado meu amor!

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Obrigação?

Por Diogo Madeira

Aí, enfim, vem a primeira crônica exclusivamente sobre a surdez após precisar pensar neste assunto por um longo instante em razões de eu não me sentir bem escrevendo sobre a referida questão. Esta referência me é inextinguível. Por quê? Eu não tenho como escapar do que sou. O escapar, eu sei, não soa bem para todos, pois é certo embaraço. Não que pensem que eu exponha certo preconceito quanto a isto. Geralmente, o preconceito, ou melhor, a desinformação se situa sempre em algum lugar, para lhes aborrecer de forma repentina ou esperada. E o dia em que eu fui ao aeroporto e o atendentente me disse depois de providenciar o meu bilhete: precisa de acompanhante? E eu respondi, de modo consciente, que não. Não obstante a importância do acompanhante a ponto de não deixar o passageiro surdo perder o voo por falta de informações evidentes. Pois bem. Há os dois lados que resultem em embaraço e conforto. Faz tempo surgiu uma coisa que me deixou curioso: surdismo. Todavia, por enquanto, sem conceito definido – está em aberto para conceituá-lo o mais rápido possível, uma vez que muitos pesquisadores vão querer o utilizar para tecer da maneira possível para apresentar as provas reais e tal. Para ser franco, esta ideia parece-me exímia porque é um assunto especial para quem queira saber se da forma como  a comunidade surda faz. Estou falando isso, pois fui possuído por um escritor tão latente que a maioria irá jamais conhecê-lo profundamente por questões de divergência ideológica. Inaugurei este título por vários motivos. Um deles é que a vontade de escrever leva-me a concretizar o que eu reflito neste espaço tão amplo virtualmente para que os meus queridos leiam por curiosidade e raiva. Cabe-me ressaltar uma coisa que vem se metendo em nós há muito tempo: a cultura surda é apenas uma cultura ou não? E por mais incrível que pareça, o surdo que opta por não ser fanático por ela é ‘pedrejado’ por devotos por cultura surda. Por quê? Esse ato me lembra a idade cristã em que o povo se sentia ofendido por ver o pesquisador que ignorava a importância da religião. Creio eu, que, o porquê será respondido em breve. Ao menos será replicado com consciência para não deixar que algo nos fere desnecessariamente. A obrigação é um meio que traz benefício e prejuizo, dois substantivos inimigos a todos. Por intermédio das pessoas mais próximas, ou melhor, dos militantes da comunidade surda que eu considero a fonte confiável, a proposta da constância das escolas bilíngues para surdos está ameaçada por capangas do MEC –  que favorece à ideia da escola inclusiva, embora os resultados sejam negativos. É lamentável ver eles tentando da maneira absurda e depreciando as explanações da comunidade surda acerca dos insucessos da metodologia da escola inclusiva. Posso afirmar que a luta contra esses males é obrigatória para não haver mais aflição aos surdos que não conseguem aprender o que queriam o suficiente por razões linguísticas. Voltando ao assunto da obrigação, ela vai tanto para o bem quanto para o mal, dependendo do que for para nós. Reitero mais uma vez que o porquê será respondido em breve.

Lembranças negativas

Bernardo Mattos, o jornalista, um homem de 39 anos, apesar de se mostrar jovem pela aparência. Olhos castanhos e cabelos de mesma cor. Ele residia num apartamento extremamente aconchegante em direção à Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Ele desconhecia os sons por nascer surdo devido à rubéola que a sua mãe teve durante a gravidez. Ele ignorava esse “problema clínico”, cujo termo citado frequentemente por médicos que não possuíam conhecimento cultural, tipo Stuart Hall e, talvez da linguística, aquele Saussure e porque levava uma vida normal e se sentia feliz por atingir várias metas mesmo sendo surdo (não deficiente auditivo porque é o termo médico) durante a sua vida – acadêmica e profissional. Levantara-se da cadeira de balanço dada pelo seu avô e fora à janela para apreciar a vista do mar, a sua preferida, surgindo umas imagens em sua cabeça: Escola de Surdos. Minha primeira escola. Não sei se foi boa essa experiência para mim – ele se perguntava, pois em sua época, sua escola era desorganizada pedagogicamente.

Mas na escola de surdos ele não completou o ensino fundamental porque foi mandado da escola de surdos para estudar na escola regular, visto que a mãe dele achava melhor, por razões de enfraquecimento pedagógico na escola de surdos. Não sei se foi boa para mim – em referência à escola regular, ele ainda se questionava e se filosofava graças aos autores essenciais aprendidos como Rimbaud na escola regular.

Aturdido psicologicamente, ele lembrava-se de que havia algumas coisas que não iam bem acerca do cotidiano escolar. Para acompanhar as matérias, eu precisava ficar sempre perto do meu colega para me sentir seguro no recebimento de informações porque a minha leitura labial não era suficiente para captar tudo. E o outro problema que me implicava era que a maioria dos professores não escrevia no quadro. Assim me perdia com frequência na transmissão de informações.

Foi um período muito duro para mim, ele falava a si próprio e se olhava nos vidros da janela como se estivesse conversando com o seu irmão gêmeo. Ele ressaltava que havia grande diferença entre a escola de surdos e a escola regular, em relação à aprendizagem e à comunicação: Como eu cheguei preparado à escola regular, graças ao empenho da minha mãe e a única barreira que eu enfrentei foi o entendimento entre mim e os professores apesar de eu obter a grande quantidade de informações. Na escola de surdos em que eu estudava até a sexta série foi uma suficiência comunicativa para poder me reconhecer como surdo, ou seja, construir a identidade surda, embora o ensino fosse fraco, por escassez de formação de professores bilingues. O jornalismo que escolhi depois de concluir o Ensino Médio foi muito Superman II para mim, por diagnosticar os erros em todos os sentidos para que eu me tornasse bom jornalista.

A partir disso eu optava por batalhar para que eu pudesse atingir minhas metas e obtive. Por isso, a língua de sinais veio me abraçar aos 18 anos de idade. Com este instrumento, eu passei a me comunicar de forma natural com pessoas surdas e ouvintes, para enriquecer a minha compreensão. Mas eu rejeitava o papo de ordem lingual (línguas de sinais como primeira língua e língua pátria como segunda língua) porque o melhor das hipóteses era a constância linguística, ao menos. Contudo, a língua de sinais era exclusivamente essencial, ou seja, se considerava um item valioso para completar a identidade do surdo ou conduzir o surdo a se sentir mais orientado na captação de informações, pensava o jornalista. Sem ela, o surdo certamente se encontraria inseguro psicologicamente, teorizava o jornalista enquanto via as ondas praticamente silenciosas – não havia banhistas porque o tempo estava feio.

A minha era muito Benjamin Button ou Forest Grump porque na minha época em que muitas pessoas desconfiavam da minha capacidade, ou melhor, da minha intelectualidade, por fato de eu ser surdo, recordava-se mais uma vez, orgulhosamente o guerreiro, por vencer várias barreiras que o cercassem durante a sua trajetória acadêmica à profissional. A escrita, especialmente para os surdos, considerava-se uma questão excepcional, por facilitar a sua passagem à sociedade majoritária. Acerca da leitura labial, também.

Fingir não ser surdo, ele refletia, seria um prejuízo extremo para a sua constituição. Ele exaltava que, a partir dela, a sua profissão cresceu de forma surpreendente além de saber escrever com precisão. E inclusive ganhara vários prêmios de melhor reportagem literária – ele lia muito Capote, Wolfe, Márquez, Barcellos e Morais que eram a referência do jornalismo literário. O sol está se pondo – ele dizia a si mesmo (ou melhor, as palavras saíram de sua mente) e não conseguia segurar as lágrimas que saíram dos seus olhos, lembrando-se das suas batalhas que lhe pareciam impossíveis, mas  foram vitoriosas. Ele ainda fazia a questão de que as crianças surdas deveriam ter o mesmo tratamento que ele recebera: Educação Bilíngue. Que eles saibam se expressar na escrita e na língua de sinais, e, se sintam bem acolhidos em dois mundos (dos surdos e dos ouvintes). Havia um ar de silêncio por uns minutos. Ele ficava parado. Finalmente ele se mexeu após ficar inerte por poucos minutos. Fechou as cortinas e foi se deitar na rede na varanda para dar continuidade à sua leitura: Literatura e Revolução, de Leon Trotski.