PRESENCIEI AQUELE EPISÓDIO ILUSÓRIO

Por Diogo Madeira

Num dia (bem quente e empoeirado) em que eu estava dentro do ônibus, bem coberto de excesso de areia por causa das estradas próximas da praia que ainda não foram asfaltadas (até hoje) voltando da escola (eu chamava de esquisita por não me entender com aqueles colegas que sequer liam gibis) à minha casa. De repente uns caras (dava pra notar que, pelos adesivos partidários nas roupas deles, eram colaboradores da campanha do Collor) apareciam no meu ônibus distribuindo materiais escolares porém com a marca do candidato presidenciável às crianças e inclusive a mim. Mas aquelas crianças estavam iludidas. De verdade. Eu não. Ou seja, pelo material escolar nas minhas mãos eu tive um péssimo pressentimento acerca do império do Collor, mesmo que estivéssemos na primeira eleição direta após o fim da ditatura militar, e ainda convivia com pessoas de esquerda desde que eu saí do berço. Ainda teve um dia chuvoso em que uns caras aparentemente comunistas pelas roupas e barbas, coisas típicas de comunista conforme eu via muitos filmes sobre isso, na minha casa se reuniam com a minha mãe. E com o mate indispensável também. Eu apenas os estava observando e, ao mesmo tempo, lendo meus gibis da turma da Mônica. Mas naquele momento a minha leitura labial ainda estava em fase de desenvolvimento, ou seja, ela tinha dois meses de vida em termos de linguagem, aí eu não podia ler aqueles lábios revolucionários. Se eles tivessem escrito do que estavam falando, eu certamente entenderia (será?) perfeitamente. Eu tinha oito anos e tive a oportunidade de apreciar o período da primeira eleição direta tão agitada, justamente por nascer no fim da ditatura militar. Eu estava ao lado da minha mãe que trabalhava como mesária contemplando muitos eleitores chegando e indo embora. Ela me instruía a não mencionar o nome do nosso candidato presidenciável (Lula) aos eleitores, o que era proibido em período de eleição. Eu via pela primeira vez o debate do segundo turno entre Collor e Lula na TV, embora eu não entendia nada, é óbvio. Porque naquela época ainda não tinha a tal acessibilidade para quem não escutava. Contudo, a despeito disso, dava pra perceber que eles estavam bem tensos como se não estivessem acostumados com esse tipo de debate, ainda mais em público, ou melhor, ao vivo, cuja ocasião histórica fora transmitida pela Rede Globo ao Brasil inteiro. Dias depois, a minha mãe me dizia que Collor venceu. Porque o povo estava iludido pelos materiais escolares distribuídos pelos colaboradores do Collor, eu pensava. Atualmente eu tenho 34 anos e vejo Aécio como Collor por distribuir beijos em mãos, como uma forma de ilusão. […] […] […] Pausa. Jovem Boêmio para de escrever seu novo romance no qual ele usa as conversas com seu amigo que é bastante politizado. Seu amigo autorizou que as conversas sobre a vida dele no meio da política fossem inseridas no novo romance do Jovem Boêmio. O intuito do Jovem Boêmio de lançar seu novo romance é acabar com a ilusão do tucanismo sobre pessoas que têm mente frágil. Seu amigo, mesmo sendo surdo, no entanto, Jovem Boêmio não o vê assim, sim como qualquer pessoa em todos os sentidos.

Graças ao trem

O trem arrancando corações passantes por conta dos ruídos metálicos a partir dos trilhos e brotando calafrios em passantes conforme o relato dos que o poeta considera os mais próximos em relação à intimidade comunicativa. Para eles os ruídos metálicos passam na frente da agressividade musical do rock além de se mostrarem capazes de transformar pobres cérebros em gelatinas. Porém, na questão da sonoridade, a linguagem da ferrovia talvez seja a mais bela de todas as outras. O julgamento pessoal não tem poder para afirmar se os ruídos metálicos são maléficos. Nesse sentido cabe à interpretação do receptor, preferencialmente, humano. O nome do poeta é Z. Apenas uma letra. Aquela marca do Zorro, uma espécie de Robin Hood. Ele escreve poesias tristes – para os leitores, tristes mesmo. Todavia, para o poeta alegres e excitantes. Ele dorme em qualquer um vagão mesmo independente da natureza do depósito metálico. O próprio poeta mete suas ideias em papeis higiênicos. Contudo, no entanto, entretanto, porém, mas… ele ganha algum dinheiro vendendo seus livros artesanais. Por fim, ele é um nômade poético e curte escrever sentado em cima de um vagão para se sentir daqueles super-heróis voando. O casaco sobretudo preto dele é o melhor amigo dele porque lhe protege de todos os climas maléficos, exceto no verão em que ele o guarda para não se matar sentindo calorão caso ele se encontre em algum lugar tropical. Os ouvidos dele são mortos desde que ele nasceu, porém nem lhe inibam de fazer algo. Ou melhor, aquela audição decidiu se suicidar por conta da briga com o cérebro antes do poeta se constituir fisicamente para alegrar o mundo terrestre. Revolta e aceitação a respeito da sua surdez são as consequências naturais para o dia-a-dia dele. Apenas quatro sentidos o fortaleceram e lhe deram um dom: ler o mundo de todas as formas que os que podem escutar não possuem. Ele classifica a ferrovia de inspiração para muitos escritores em razão da liberdade espontânea. Como dizia Fernando Pessoa, ler pessoas e coisas eleva a sua inteligência ou enche a sua bagagem cultural de ideias loucas. Aliás, Pessoa é um dos escritores favoritos dele graças ao incentivo do seu professor de literatura nos tempos do ensino médio. Teve um incidente engraçado em relação a sua atuação no âmbito escolar, especificamente, do nível escolar referido anteriormente. Um colega seu comentava com ele que havia uma guria interessada nele que sentia tesão por ele. Tensão? Ele indagava ao seu colega. Não, tesão, ele corrigia. Tesão? Mas tem certeza? Infelizmente na época ele, ainda adolescente, não se ligava muito na ideia do namoro por conta da sua timidez que, com certa frequência, o mandava ir à biblioteca para se refugiar, para pesquisar a palavra tesão. Ler poesias que iniciou-se pela colega dele do ensino fundamental, e ainda se arriscava a escrever umas poesias, uma delas foi: O vento ama pessoas/odeia pessoas/suja muitos corpos femininos/ele é amante da praia/ela gosta dele/ele gosta dela/ele grita mais do que ela/o vento é bom/também é mau. Essa primeira poesia foi escrita por ele quando tinha uns 16 anos conforme a sua memória, que é bem de elefante. Muitos quadrinhos vivenciais que ele teve. Atualmente ele está numa área que abraça letras. Ele aposta que muitas pessoas desconhecem a palavra ereção. Um belo troco para muitos. O poeta Z ressalta que ler o mundo o excita. Ler com rapidez livros se deve ao fato do cara aprender com o meteoro ferroviário. Para ele folhear páginas é equivalente à sonoridade metálica, obviamente uma imaginação dele. Agora, está aí o fim feliz.

Diadosurdo? Surdodioado? Dosurdodia? Dia do Surdo?

Por Diogo Madeira

 

  O jovem boêmio acabara de ter uma ideia, pra escrever sobre um surdo perambulando pelas ruas, por causa daquele dia do surdo (não surdo-mudo!). Ele foi correndo até o seu apartamento. Antes de sentar à sua máquina de escrever ele sacava três latas de cerveja da sua geladeira, que lembra uma dos anos 50 pelo design. O papel que ele havia começava a ser tocado pelas letras de metal, acarretando em barulhinhos proletariados:

  Um surdo, de 28 anos, aparentemente moreno, para vocês saberem, era super comunicativo. Ele não parava de render boas conversas em bares boêmios, o que era considerado o querido do bar pelas pessoas que frequentavam os mesmos bares que ele. Não era unicamente, que, ele usava a técnica estratégica: leitura labial. Mas também se expressava (muito bem, fala sério!!) tanto na escrita quanto na língua de sinais (eu quase ia escrever linguagem de sinais, o que era incorreto para os que atuam na área de surdez ou linguística). Mas ele se sentia orgulhoso de ser surdo? Ele não se manifestava a respeito. Mas dava pra notar que ele fazia questão de celebrar o dia do surdo sim. Mas que este dia não era daqueles idiotas, pois foi baseado em movimentos revolucionários ou sócio-culturais pelos surdos militantes, assim como o dia da mulher, para vocês entenderem melhor. Ele nasceu surdo conforme os médicos diagnosticavam e estudava em melhores escolas graças à educação precisa dada pelos seus pais. E por ser notado como surdo bilíngue (em Língua Portuguesa e Libras) sempre figurava em primeiros lugares em concursos literários – tanto em língua escrita quanto em língua de sinais, pois ele era craque em redação (em língua portuguesa!) segundo seus amigos mais próximos. Ele baixava a bola de que a língua de sinais prejudicaria a língua pátria porque entendia que era necessário sempre deixar a sua mente afiada, ou seja,  via o bilinguismo como essência linguística (embora não desnecessariamente obrigatório) para surdos. Sem falar que ele conquistava muitas mulheres surdas – sinalizadas, oralizadas, bilíngues e até implantadas! Segundo o relato dos seus amigos mais próximos, ele era plenamente aberto para dialogar com pessoas que possuíam ideologias diferentes em relação à surdez. De acordo com a confidência de uma amiga dele (mais íntima), ele chegava a dormir muitas vezes com uma mulher implantada, que era casada, em certos hotéis logicamente boêmios. Todavia, havia certa divergência entre eles especialmente sobre o dia do surdo. Ela dizia que era irrelevante o dia do surdo, visto que não tinha aquele orgulho (de ser surdo). Aquilo deixava o jovem surdo pensativo, por bom tempo, ou melhor, muitos sois posteriores, imaginam (eu mesmo falo!). A despeito disso, ele concluía que o dia do surdo era daqueles que foram brotados das lutas tristes e estressantes, aquelas coisas de revolução. Quem que achava o dia do surdo como partido daquele fanatismo surdo tinha seu direito de expressar o que pensava sim. Existia diversidade na surdez sim, no entanto, não era preciso desprestigiar o mesmo dia, uma vez que sempre que surgia uma nova cultura – no caso da cultura surda, por exemplo. Afinal, era  merecidamente lembrado o dia do surdo. Quando? Quando? Quando? Dia 26 de setembro!! Ou melhor, Dia do surdo na primavera! Este dia era direcionado aos que não escutavam, ou melhor, aos que APRECIAVAM a revolução surda. Esclarecendo melhor, este dia foi estabelecido quando a primeira escola de surdos foi fundada no mesmo período no Brasil, o INES – Instituto Nacional da Educação de Surdos.  Voltava-se ao assunto do jovem surdo. Teve um momento em que ele e seu amigo (que era surdo oralizado) em um bar discutiam o dia do surdo, e eles apresentavam algumas desavenças a respeito da relevância de celebrar o mesmo. Aquilo para o jovem surdo era normal, pois cada um tinha seu ponto de vista. Ponto de vista. Não obstante isso o dia do surdo se encontrava lembrado constantemente por muita pessoas, por entenderem como o fruto das lutas surdas. Em outro instante o jovem surdo dormia com uma surda bilíngue. De repente, enquanto o sol nascia, eles estavam explanando sobre o dia do surdo e achavam interessante o fato de o dia do surdo ser celebrado quando o dia 26 de setembro chegava. Porque eles foram instruídos pela educação diferente para enxergarem por outros ângulos o mundo dos surdos (eu detesto este termo, mas…). Prestes a ser encerrada esta história, o jovem surdo participava ativamente da comunidade surda e, no entanto, ao passo que, inclusive da majoritária. Ele publicava muitos livros. Ele não sabia o que era impasse, obstáculo, barreira, aquelas coisas ignorantes que muitas pessoas viam. Ok, mas e o orgulho surdo? Ele entendia que era mais um orgulho. Ou seja, ele não ponderava a surdez como doença, sim, ao menos no seu entendimento, a diferença linguística e no mais nada.

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As letras de metal paravam de cutucar o papel repleto de manchas literárias.

O jovem boêmio, cansado, decidira dar uma pausa ao seu trabalho. Foi taxado por uma mulher que estava no quarto dele, mesmo com o tom perceptivelmente diferente mas lindo (pelo menos) para ele: Meu amor, se está cansado, queres que eu faça uma boa massagem em você? Ela falava e sinalizava ao mesmo tempo. Aceito! Ele respondia sinalizando pra ela. A sua mulher era surda, ou melhor, surda bilíngue. Antes de iniciar a cena romântica, ele não deixava de sinalizar uma coisa importante à sua mulher: Hoje é dia 26 de setembro, certo? Feliz dia do surdo! Ela sorria e ainda falava: … ob… obrigado meu amor!

Me emocionei e você?

 Por Diogo Madeira

Eu não aguento ver a invisibilidade do escritor surdo Jorge L. Guimarães no meio do mundo dos surdos. Isso me dói, francamente. Tenha plena certeza que muitos surdos não sabem da origem dele, visto que a época dos anos 60 em que ele vivia, ainda não tinha internet. Aí a época dele era presa à ditadura. Talvez lá o compartilhamento de informações era restrito. E a editora (me é desconhecida) que publicou o livro não era de grande expressão. Por isso estou reforçando a importância do conteúdo dele (o livro “até onde o surdo vai”) que não foi divulgado o bastante. Vou repetir o que eu havia dito em outro texto: ele era o melhor de milhões de surdos que tentaram escrever literariamente porque Guimarães sabia se expressar na escrita, e porém, ao mesmo tempo, tinha se defendido das desavenças das pessoas a respeito do seu talento.

O que tem de interessante ele é a postura, sabendo lidar com todos os sentimentos em relação ao que caber a ele. Tenho me perguntado como ele conseguia mandar suas crônicas para o jornal O Globo. Até onde eu sei, este jornal é uma das principais referências de jornalismo na atualidade. Esses dias eu comentei disso com meus amigos. Eles também carregam a mesma dúvida que eu. Uma vez que a escassez de informações me deixa aflito, e estou tendo dificuldades para desvendar a origem dele. No Rio, eu indaguei aos meus amigos do Jorge, no entanto, nenhum deles questionados pôde ajudar, segundo ele, o Jorge é um elemento invisível. Ele tem razão. Para mim, ele é uma lagarta depois borboleta inalcançável. Ainda mais que eu me sinta na obrigação de colocar o escritor surdo na mídia a ponto de as pessoas saberem da sua caneta literária no meio do mundo dos surdos (não tenho a vontade de rotular cada surdo, tipo sinalizado, oralizado ou bilíngue porque não tenho querido perder meu tempo com isso).

…. p … par pa p

………….

O jovem boêmio parou de escrever na sua máquina de escrever.  Ele detestava do laptop, pois acreditava que a máquina de escrever o deixasse mais inspirado.

Amor? – chamou a sua esposa. Estou aqui, no meu escritório. – Respondeu o boêmio, eles moravam juntos, no entanto, de forma democrática, ou seja, não civilmente. Eles se conheceram numa festa. E eram apreciadores do amor livre. Ela trabalhava como roteirista de quadrinhos e o jovem tentava seguir a carreira de escritor. Eles eram surdos, porém, valorizavam a vida ao invés de ficarem presos numa única cultura (cultura surda).  Como está indo o seu livro? – Indagou a mulher. Devagar. Estou sem inspiração. – Replicou o jovem. Que tal nós cairmos fora pra tomar umas cevas até a inspiração te voltar? – Sugeriu a mulher. Por que não? Sorriu o jovem.

Amor, antes de sairmos, quero te mostrar uma coisa. O jovem pegou o livro extremamente amarelado que estava prestes a se despedaçar em razão da ação do tempo e estendeu-o à mulher: leia o prefácio do Jorge Bloch, que era grande camarada de Jorge. Eu tentei localizá-lo por meio do google, mas vi que numa notícia ele havia falecido faz tempão. Perdi essa oportunidade de obter as informações reais sobre o escritor surdo. Localizar a família dele é complicado, visto que lá no google não tem muita coisa. Vá para as últimas linhas, sugeriu o jovem.

Instruída, ao olhar para o jovem que estava aguardando a leitura dela, a mulher lia:

É uma simpatia ambulante, uma inteligência lúdica, um espírito de escólio. Quis que eu escrevesse algumas linhas para prefaciar seu livro, em que reune algumas de suas belas crônicas, de suas ideias limpídas, de seu ideal luminoso.

 

Basta que lhes conte um fato para que fiquem sabendo quem é.

 

Quando me procurou com seus artigos admiráveis eu observei:

 

– Jorge, se eu encontrar alguma coisa que eu considere errada, que eu considere imprópria, em seu livro, posso corrigir?

 

Jorge sorriu e com esse escrúpulo fabuloso, próprio de almas puras e privilegiadas, observou protestando:

– Mas se o senhor for emendar o meu livro… o livro não será mais meu!

 

Não toquei em nenhuma palavra, em nenhuma linha.

 

Não fiz nenhuma observação.

 

Só quero deixar aqui consignada a minha admiração por Jorge. Eu não diria que Jorge é um grande homem, apesar de sua surdez. Não. Talvez eu devesse dizer que ele é um homem admirável justamente por ser surdo. Por conservar dentro de sua alma generosa essa beleza, essa pureza, essa grandeza.

 

Todos os que lerem suas crônicas compreenderão o que quero dizer. Vocês verão que ele, feliz como é, jamais se preocupa com seu próprio problema. Reparem como vive o problema dos outros. Esse livro é um livro de bondade, de ternura, de luz, de compreensão.

 

Jorge, eu tenho um orgulho imenso de me considerar seu amigo. Como é que você sem ouvir consegue ouvir muita coisa?

A mulher, ao terminar de ler, ficou sem palavras. Você se emocionou? – Perguntou o jovem. Sim. – Respondeu aos prantos a mulher. Eu leio isso muitas vezes, e, desde então estou com essas palavras comoventes sobre o Jorge na minha cabeça. – Confessou o jovem. Você anda se inspirando nele para o seu livro, né? – Observou a mulher emocionada, ainda aos prantos. Ela deixou o livro, ainda aberto, no chão e conduzia o jovem para o quarto. Mudança de planos, em vez de irem no bar, eles foram fazer amor, celebrando o mistério de Jorge L. Guimarães.

Defender a cultura surda o tempo todo é impossível

Por Diogo Madeira

Resolvo escrever um texto indignante por intermédio das críticas que eu recebi ultimamente por não defender a cultura surda cuja questão peculiar – para quem aprecia em algumas comunidades divergentes quando os militantes foram insultados pelos opostos. É uma espécie de guerra disputando pela terra.  Mas que ela se considera uma das minhas outras culturas, digo, faz parte da minha multiculturalidade. Eu a (cultura surda) tenho, porém, não prioritariamente. Não é pertinente que eu diga a todos que a minha é surda. O meu passatempo é conhecer culturas diferentes, ao menos. Existem tipos de círculo de amigos diferentes. Há algumas pessoas que não gostem da cultura dos geeks. Mas eu tenho apreço por ela. Ninguém é obrigado a assimilar essa. A questão de comunicação cuja posição eu trato como uma reflexão séria, uma vez que eu creio que a comunicação exige entrosamento entre emissor e receptor na formação da mensagem. Eu me pergunto: a ordem cultural deve ser prática? Ou as culturas devem estar no mesmo nível? A outra coisa que me deixa entusiasmado é a cultura surda voltar a ser questionada conceitualmente a ponto de se redefinir por conta das desavenças em comunidades relacionadas com a surdez. Trata-se de revisão conceitual. Pois o conceito de cultura é complexo e também é definido de acordo com a área pertencente a quem atua. Quem é dono da razão? Talvez não exista essa função. Porque a antropologia fala outra coisa acerca da cultura e a educação outra coisa. Aí o conceito de cultura surda acaba sendo indefinido e revisado. E vêem as outras questões intrigas: etnocídio; extinção cultural; linguística cultural. Expressões agressivas (eu entendo) em momentos errados, ou seja, em discussões desnecessárias. Dentre elas que foram mencionadas constantemente para deixar as chamas acesas em campos relacionados com a surdez.  No sentido antropológico, a cultura se vê como uma representação civil, simplesmente. A despeito disso, reitero mais uma vez, a cultura surda deve ser revisada conceitualmente a fim de pôr o fim de vez nas brigas intermináveis Sou um jornalista, ou seja, defensor da verdade. Assim como o V de Vingança (sujeito anarquista que usa máscara do símbolo do teatro para cobrir o rosto). Devo lhes dizer que naquele momento em que eu não defendi a cultura surda (eles acharam que eu não defendi, mas eu estava defendendo) quando a discussão estava ficando feia porque constatei uma razão que os opostos expressaram e aí optei por mudar de direção para mostrar que eu era apenas um participante, trocando ideias com todo mundo (sendo do meu lado e do oposto) a ponto de ganhar pontinhos para meus neurônios. Para isso, pretendo entrar para o mestrado em antropologia (a minha futura orientadora sugeriu devido à minha proposta científica). Torcem por mim.

Quem é Jorge Sérgio L. Guimarães?

Por Diogo Madeira

 

A metade geográfica do nosso Brasil não faz ideia de quem é Jorge Sérgio L. Guimarães e a outra sabe que ele escrevia crônicas para o jornal O Globo nos anos 50. Sobre o quê ele produzia artigos? Sobre as suas vivências. E a sua surdez. Eu posso afirmar que ele é muito misterioso para mim porque realizei pesquisas intensas no Google para obter informações sobre ele e não achei nada dele. Vou ser franco com vocês que atuam na área da surdez, os escritos dele me encantaram. O que ele escreveu é extraordinariamente admirável e ele chegou a me ‘hipnotizar’ em algumas crônicas. Em outro momento eu conversei com a minha amiga acerca do escritor que eu li, aí ela considerou ele como o misterioso surdo de 1961 – o livro foi lançado no mesmo ano e por sinal não teve grande repercussão nesta época e ainda não descobrimos o motivo do insucesso. É só questão de tempo. A despeito disso, eu comentei do livro que li com empolgação para ela que é doutoranda em lingüística, a qual eu admiro muito desde que nós nos conhecemos. De forma carinhosa, combinei com ela que eu darei uma cópia do meu livro, para acabar com a curiosidade que a está matando depois de falar do referido que deixara a minha amiga faceira. A conversa que eu havia com ela há pouco tempo me parecia empolgante porque nós interagimos sobre as novidades que aconteceram em nós nos últimos dias. Pois as nossas idéias são mútuas por nós termos o mesmo gosto pela leitura. O livro que eu li se chama ‘Até onde o surdo vai’. É raro para ser achado, eu diria. Foi um árduo trabalho para eu conseguí-lo por meio do site denominado Estante Virtual, uma rede de sebos. Ontem ele chegou na minha casa, em forma de carta simples – por mais que me surpreendesse, ele chegou de São Paulo à minha cidade em três dias. As folhas do livro são amareladas devido à ação do tempo, no entanto, o que me deixa mais empolgado ainda é a forma original como o livro é. A minha conclusão franca é que este livro que escritor surdo escreve é melhor por questões de conteúdo que eu já li, embora ele destacasse o método oralista em algumas crônicas, deixo que claro que não podemos culpar a época dele. O que importa, no meu ponto de vista, é que o escritor que lançou esse livro se sentia bem com o que pensava na hora de produção textual. Não tem como se segurar para não lhes deixar embaraçados. De alguma maneira eu também não me calaria. No livro ele falava um pouco de sua vida. Ele era funcionário do ministério da fazenda. Ele ainda destacava o empenho de sua mãe que o levara a aprender a falar e a ler nos lábios. Contudo, pouca coisa que ele abasteceu no seu livro. A pergunta me cutuca, ou melhor, nos toca: será que ele fez faculdade? De quê? Eu acredito que a sua origem acadêmica está longe de ser descoberta, por falta de dados. Mesmo que me pareça misterioso esse sujeito, não vou olvidar o que li regozijamente.

Obrigação?

Por Diogo Madeira

Aí, enfim, vem a primeira crônica exclusivamente sobre a surdez após precisar pensar neste assunto por um longo instante em razões de eu não me sentir bem escrevendo sobre a referida questão. Esta referência me é inextinguível. Por quê? Eu não tenho como escapar do que sou. O escapar, eu sei, não soa bem para todos, pois é certo embaraço. Não que pensem que eu exponha certo preconceito quanto a isto. Geralmente, o preconceito, ou melhor, a desinformação se situa sempre em algum lugar, para lhes aborrecer de forma repentina ou esperada. E o dia em que eu fui ao aeroporto e o atendentente me disse depois de providenciar o meu bilhete: precisa de acompanhante? E eu respondi, de modo consciente, que não. Não obstante a importância do acompanhante a ponto de não deixar o passageiro surdo perder o voo por falta de informações evidentes. Pois bem. Há os dois lados que resultem em embaraço e conforto. Faz tempo surgiu uma coisa que me deixou curioso: surdismo. Todavia, por enquanto, sem conceito definido – está em aberto para conceituá-lo o mais rápido possível, uma vez que muitos pesquisadores vão querer o utilizar para tecer da maneira possível para apresentar as provas reais e tal. Para ser franco, esta ideia parece-me exímia porque é um assunto especial para quem queira saber se da forma como  a comunidade surda faz. Estou falando isso, pois fui possuído por um escritor tão latente que a maioria irá jamais conhecê-lo profundamente por questões de divergência ideológica. Inaugurei este título por vários motivos. Um deles é que a vontade de escrever leva-me a concretizar o que eu reflito neste espaço tão amplo virtualmente para que os meus queridos leiam por curiosidade e raiva. Cabe-me ressaltar uma coisa que vem se metendo em nós há muito tempo: a cultura surda é apenas uma cultura ou não? E por mais incrível que pareça, o surdo que opta por não ser fanático por ela é ‘pedrejado’ por devotos por cultura surda. Por quê? Esse ato me lembra a idade cristã em que o povo se sentia ofendido por ver o pesquisador que ignorava a importância da religião. Creio eu, que, o porquê será respondido em breve. Ao menos será replicado com consciência para não deixar que algo nos fere desnecessariamente. A obrigação é um meio que traz benefício e prejuizo, dois substantivos inimigos a todos. Por intermédio das pessoas mais próximas, ou melhor, dos militantes da comunidade surda que eu considero a fonte confiável, a proposta da constância das escolas bilíngues para surdos está ameaçada por capangas do MEC –  que favorece à ideia da escola inclusiva, embora os resultados sejam negativos. É lamentável ver eles tentando da maneira absurda e depreciando as explanações da comunidade surda acerca dos insucessos da metodologia da escola inclusiva. Posso afirmar que a luta contra esses males é obrigatória para não haver mais aflição aos surdos que não conseguem aprender o que queriam o suficiente por razões linguísticas. Voltando ao assunto da obrigação, ela vai tanto para o bem quanto para o mal, dependendo do que for para nós. Reitero mais uma vez que o porquê será respondido em breve.