Fica aqui meu carinho por escrito

     Todos sabem que escritor é sinônimo de produzir ideias literárias. Naquele dia em que se realizou o encontro (mais incomum para os que o jovem boêmio conhecia).  A mulher que o jovem ia encontrar era meiga e deslumbrante na questão da literatura. Ela era metida a escritora, e os escritos sempre o impressionavam. Ela era tão invocável quando se tratava dos assuntos complexos. O corpo dela, conforme o ponto de vista do jovem, era uma poesia indígena. O nome dela era Lana Lane. Ela e o jovem boêmio foram eventualmente inimigos em razão das desavenças ideológicas, no entanto, tempos depois, eles se amadureceram bastante graças à aspiração de letras literárias. Por isso que eles voltavam a se falar, embora as desavenças persistissem, porém controladas.  Eles se tornavam amigos.

    Finalmente Lana Lane e o jovem boêmio combinavam de tomar café a ponto de se verem pessoalmente pela primeira vez, o que era a coisa que causava medo às pessoas distantes (sabem como é, né?). Como eles moravam em estados diferentes, o jovem boêmio viajava ao estado dela – não por ela, sim para curtir as suas férias antes de retornar ao trabalho -, e durante a estada dele na terra da garoa eles conseguiam marcar um encontro via whatsapp, uma benção tecnológica. Era uma tarde ensolarada. Na casa das flores perto da avenida acordada (interpretada como movimentada). Lana Lane chegava primeiro, e o jovem boêmio precisava mandar um torpedo a ela avisando que ia se atrasar um pouco. Mas o tempo de atraso era pequeno devido à existência do metrô, cujo transporte facilitava muito a vida de muitos. Aparentemente ansioso, o jovem boêmio se encontrava com Lana Lane. Os sorrisos deles se falavam por uns segundos ao passo que a distância entre eles se reduzia. Depois eles emitiam tais coisas convencionais tipo oi, tudo bem, tudo certo e vamos. E depois da troca de abraços, eles foram ao local gastronômico cultural (aquele prédio era internamente híbrido, museu e cafeteria). A ideia da troca de presentes literários que eles haviam sugerido foi concretizada perante os cafés cariocas – café típico da terra da garoa.

    O café estava forte, mas foi açucarado pelo jovem boêmio. Lana Lane, ao contrário do seu amigo, curtia café forte. Começavam a conversar de verdade, mas a felicidade tomava a conta deles, visto que eles haviam se falado virtualmente por muitos anos. Kubrick foi o assunto momentâneo. Eles concordavam que Laranja Mecânica era o melhor filme do Kubrick em razão da criatividade cinematográfica. O jovem boêmio pedia outro café, e quando o café dele chegou Lana Lane que tinha jeito de brincalhona dava dezenas de saquinhos de açúcar ao seu amigo, pois percebia que ele não curtia café forte, ou melhor, café sem açúcar. Eles tinham uma coisa em comum: se formaram em Comunicação Social. Inclusive exibiam a intimidade aguda com a literatura e o cinema. Ela pegava o bloco de notas do jovem boêmio a ponto de querer deixar um registro:  “só para o caderno não ter sido em vão, na última instância… fica aqui meu carinho por escrito!”. Depois do feito, eles brincavam de tirar fotos, registrando os momentos do encontro – o jovem boêmio o considerava um dos melhores encontros que ele já teve em sua vida. Ao se despedirem, eles se abraçavam intensamente, cujo contato físico indicava o prazer galáctico. No seu apartamento, enfiado na sua máquina de escrever,  a tese que o jovem boêmio havia concluído: Os olhares opostos fortalecem a amizade deles graças à penetração dos que tinham se encontrado há pouco tempo à literatura de Milan Kundera. Obrigado, Kundera. Se não fosse por você, eu não conheceria Lana Lane.  O jovem boêmio fechou o texto com muita alegria. Antes de se atirar na cama, ele ainda dizia a si mesmo como se estivesse conversando com um fantasma: acho que não vou conseguir me esquecer daquele encontro mágico.  Ele até cogitava colocar o seu bloco de notas no qual Lana Lane havia deixado o seu registro num cofre, o que, para ele, era a coisa tão valiosa.

Anúncios