LENDO GIBI EM TRÊS ÉPOCAS DIFERENTES

 

Aos 7 anos

Em 1987.

O garotinho adorava ler gibis. Preferencialmente do Incrível Hulk.

À espera do ônibus, o garoto de 7 anos tentava folhear gibis mesmo que impedido pela mulher da banca. Todavia, ele insistia em ler mesmo sem comprar porque não tinha nenhum centavo pra comprar um gibi. A mulher que perdeu a paciência o atacou, mas os vinis que ele empurrou ao correr caíram.

O garotinho já estava com a sua mãe e a mulher foi ao redor deles:

Moça, seu filho quebrou todos os vinis quando ele escapou acabou empurrando.

Não quero mais vê-lo.

Esse garotinho não recebeu castigo.

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Aos 11 anos

O ano em que Collor caiu por conta da corrupção.

No verão, a barraca instalada no acampamento da praia do Cassino, o garotinho de 11 anos ficava na revistaria de tarde até a noite lendo quase todos os gibis e a mãe dele teve de ir até lá buscá-lo. A revistaria foi a zona de conforto pra ele porque não gostava de praia.

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Aos 24 anos

Apenas era um cara que trabalhava pra pagar as contas além de estudar a ponto de se tornar um profissional qualificado.

Ele fazia questão de ler gibis escondido da sua namoradinha porque ela não gostava de ler.

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Pausa.

Eu adoro ler gibis – Pensou Jovem Boêmio, que estava prestes a sair da sua máquina de escrever pra pegar uma cerveja gelada, na qual ele havia escrito um conto sobre a importância de ler gibis.

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Conquanto

Conquanto… Conquanto? Interrompe-se o jovem escritor ao escrever na máquina de escrever. Embora? Não, porque não posso repetir essa preposição. Sim, conquanto. Ele coloca depois de pensar por mais de dez minutos. A organização das palavras é braba, admite o jovem enquanto toma a sua bohemia. Isso é igual à cirurgia plástica. Ele afirma arquitetonicamente, ao imaginar uma mulher, a introdução é o rosto feminino, o desenvolvimento é o corpo e a conclusão é a vagina. A revisão, sobretudo, é o amor. Porque essa base permite mais canetas, quer dizer, cama. Conquanto a mulher ceda as pernas ao parceiro se estiver plenamente apaixonada, o autor soube como lidar com o desligamento sentimental porque ele tem experiência em mulheres que foram comidas, no entanto, desde que tenha diálogo constante (e dócil) para acelerar a excitação. Enfim, parágrafo fechado, o jovem escritor comemora por conseguir terminar o primeiro parágrafo depois de muitos dias tentando concluir e muitas folhas amassadas no lixo. Ele compara o primeiro parágrafo ao parir o bebê, o que é mais tenso. Acho que estou apaixonado por conquanto, ele diz a si próprio ao se preparar para ir para a cama que o cansaço o manda. Conquanto, casa comigo? O jovem escritor imagina alegremente contemplando a sua bohemia vazia. Quando eu tiver um bichinho de estimação, vou batizá-lo de conquanto, pensa ele enquanto se encaminha para a cama.

Atitude birrenta

Ninguém curte atitude birrenta. Nem alguém quer compartilhar isso. Nenhuma pessoa é capaz de lidar com essa atitude. Porque é uma coisa que decerto incomoda as pessoas tanto em lugares informais quanto em civis. No seu apartamento, o jovem boêmio enfiado na sua máquina de escrever tentando terminar o seu livro antes de estourar o prazo dado pelo seu editor – que foi prorrogado muitas vezes. Ele tem coleção de chapéus. Para ele, cada chapéu comprado em cada lugar visitado significa registro. Ele se pergunta enquanto tenta escrever: por que ninguém aguenta a atitude birrenta? Talvez eu não suporte porque não curto pessoas explosivas. Sem trema no aguentar é muito estranho para mim, diz a si próprio o jovem. Ele olha da janela a bela vista da praia de Copacabana e reflete: quando se vai mudar a atitude das pessoas? Ele volta para a sua máquina de escrever e enfia suas letras: esse mundo injusto motiva o indivíduo a vencer o seu medo encarando as situações torturáveis como a miséra. Sabe-se que ao encarar uma dessas é necessário recorrer aos livros do Dostoiévski, recomendavelmente ao intitulado O Duplo, que conta a história do servidor pressionado pelos superiores. Uma vez que os livros do russo inestimável, ao meu ver, servem como dicas para a pessoa arquitetar a sua forma de se defender diante dos inimigos (ou melhor, pessoas opostas) sem tomar uma atitude como essa (atitude birrenta). Ao organizar a agenda social, o sujeito que estiver perdido socialmente deve tomar uma decisão afoita para dar a volta por cima para elevar a sua autoestima, finaliza a linha com o ponto o jovem. Depois de uma pausa, volta a abastecer o que passa pela sua cabeça: Além da birrenta, o que se incomoda cotidianamente é a atitude quietista que toma a maioria das pessoas. Diz-se sê-la incorrigível em razão do histórico e talvez do costume. Inspirado, o escritor enfia mais letras: Qualquer atitude tem que ser tolerante para as pessoas, ou seja, perante as pessoas queridas; o modo de tratar bem os sujeitos obrigatoriamente é admissível. Uma vez que tomar uma atitude – maleável – arquiteta o comportamento tanto social por completo quanto linguístico por inteiro, concluía o escritor. E continua: certamente que a revelia comportamental usufrui dos seus pensamentos revolucionários para fazer reforma em sujeito. Cada atitude que o sujeito toma é instantânea principalmente de acordo com o clima. Que droga – o escritor se irrita ao deixar a sua cerveja derramar na sua máquina de escrever. A folha que havia sido escrita está molhada e o jovem a tira para tentar mirrá-la com a secadora abandonada por uma mulher que foi ficante dele. Em poucos minutos, está seca, no entanto, as letras estão borradas devido à tinta. Tenho que re-escrever, esta noite será longa e que a cerveja vai me fazer companhia, pensa o escritor.

Me emocionei e você?

 Por Diogo Madeira

Eu não aguento ver a invisibilidade do escritor surdo Jorge L. Guimarães no meio do mundo dos surdos. Isso me dói, francamente. Tenha plena certeza que muitos surdos não sabem da origem dele, visto que a época dos anos 60 em que ele vivia, ainda não tinha internet. Aí a época dele era presa à ditadura. Talvez lá o compartilhamento de informações era restrito. E a editora (me é desconhecida) que publicou o livro não era de grande expressão. Por isso estou reforçando a importância do conteúdo dele (o livro “até onde o surdo vai”) que não foi divulgado o bastante. Vou repetir o que eu havia dito em outro texto: ele era o melhor de milhões de surdos que tentaram escrever literariamente porque Guimarães sabia se expressar na escrita, e porém, ao mesmo tempo, tinha se defendido das desavenças das pessoas a respeito do seu talento.

O que tem de interessante ele é a postura, sabendo lidar com todos os sentimentos em relação ao que caber a ele. Tenho me perguntado como ele conseguia mandar suas crônicas para o jornal O Globo. Até onde eu sei, este jornal é uma das principais referências de jornalismo na atualidade. Esses dias eu comentei disso com meus amigos. Eles também carregam a mesma dúvida que eu. Uma vez que a escassez de informações me deixa aflito, e estou tendo dificuldades para desvendar a origem dele. No Rio, eu indaguei aos meus amigos do Jorge, no entanto, nenhum deles questionados pôde ajudar, segundo ele, o Jorge é um elemento invisível. Ele tem razão. Para mim, ele é uma lagarta depois borboleta inalcançável. Ainda mais que eu me sinta na obrigação de colocar o escritor surdo na mídia a ponto de as pessoas saberem da sua caneta literária no meio do mundo dos surdos (não tenho a vontade de rotular cada surdo, tipo sinalizado, oralizado ou bilíngue porque não tenho querido perder meu tempo com isso).

…. p … par pa p

………….

O jovem boêmio parou de escrever na sua máquina de escrever.  Ele detestava do laptop, pois acreditava que a máquina de escrever o deixasse mais inspirado.

Amor? – chamou a sua esposa. Estou aqui, no meu escritório. – Respondeu o boêmio, eles moravam juntos, no entanto, de forma democrática, ou seja, não civilmente. Eles se conheceram numa festa. E eram apreciadores do amor livre. Ela trabalhava como roteirista de quadrinhos e o jovem tentava seguir a carreira de escritor. Eles eram surdos, porém, valorizavam a vida ao invés de ficarem presos numa única cultura (cultura surda).  Como está indo o seu livro? – Indagou a mulher. Devagar. Estou sem inspiração. – Replicou o jovem. Que tal nós cairmos fora pra tomar umas cevas até a inspiração te voltar? – Sugeriu a mulher. Por que não? Sorriu o jovem.

Amor, antes de sairmos, quero te mostrar uma coisa. O jovem pegou o livro extremamente amarelado que estava prestes a se despedaçar em razão da ação do tempo e estendeu-o à mulher: leia o prefácio do Jorge Bloch, que era grande camarada de Jorge. Eu tentei localizá-lo por meio do google, mas vi que numa notícia ele havia falecido faz tempão. Perdi essa oportunidade de obter as informações reais sobre o escritor surdo. Localizar a família dele é complicado, visto que lá no google não tem muita coisa. Vá para as últimas linhas, sugeriu o jovem.

Instruída, ao olhar para o jovem que estava aguardando a leitura dela, a mulher lia:

É uma simpatia ambulante, uma inteligência lúdica, um espírito de escólio. Quis que eu escrevesse algumas linhas para prefaciar seu livro, em que reune algumas de suas belas crônicas, de suas ideias limpídas, de seu ideal luminoso.

 

Basta que lhes conte um fato para que fiquem sabendo quem é.

 

Quando me procurou com seus artigos admiráveis eu observei:

 

– Jorge, se eu encontrar alguma coisa que eu considere errada, que eu considere imprópria, em seu livro, posso corrigir?

 

Jorge sorriu e com esse escrúpulo fabuloso, próprio de almas puras e privilegiadas, observou protestando:

– Mas se o senhor for emendar o meu livro… o livro não será mais meu!

 

Não toquei em nenhuma palavra, em nenhuma linha.

 

Não fiz nenhuma observação.

 

Só quero deixar aqui consignada a minha admiração por Jorge. Eu não diria que Jorge é um grande homem, apesar de sua surdez. Não. Talvez eu devesse dizer que ele é um homem admirável justamente por ser surdo. Por conservar dentro de sua alma generosa essa beleza, essa pureza, essa grandeza.

 

Todos os que lerem suas crônicas compreenderão o que quero dizer. Vocês verão que ele, feliz como é, jamais se preocupa com seu próprio problema. Reparem como vive o problema dos outros. Esse livro é um livro de bondade, de ternura, de luz, de compreensão.

 

Jorge, eu tenho um orgulho imenso de me considerar seu amigo. Como é que você sem ouvir consegue ouvir muita coisa?

A mulher, ao terminar de ler, ficou sem palavras. Você se emocionou? – Perguntou o jovem. Sim. – Respondeu aos prantos a mulher. Eu leio isso muitas vezes, e, desde então estou com essas palavras comoventes sobre o Jorge na minha cabeça. – Confessou o jovem. Você anda se inspirando nele para o seu livro, né? – Observou a mulher emocionada, ainda aos prantos. Ela deixou o livro, ainda aberto, no chão e conduzia o jovem para o quarto. Mudança de planos, em vez de irem no bar, eles foram fazer amor, celebrando o mistério de Jorge L. Guimarães.

Devo me embebedar?

 Jack Kerouac. Entre os outros beats como ele também. Ficar bêbado acarreta inspirações. Por exemplo, eu estou, enquanto escrevo, me embebedando, diz o jovem escritor. Ele chama-se Henri Bolano, é formado em jornalismo e mestre em história de literatura. Nas horas vagas ele trabalha no seu primeiro livro – impresso em vez de publicar seus contos no seu blog a fim de buscar reconhecimento pelo seu trabalho fora da virtualidade.

 Pôr um papel na boca da minha máquina de escrever faz os meus dedos ganharem mais músculos. Escrever a mão também faz o punho sofrer tendinite. Nenhuma coisa é boa especialmente para quem escreve. Outra coisa, escrever esquisitamente, ou melhor, incorretamente significa um escritor diferencial, ainda mais com o seu próprio estilo. Como tenho alimentado muitos autores populares, diz o jovem, a respeito de ter sucesso na expressão na escrita literária, 85% dos escritores escrevem bêbados conforme eles alegavam em suas biografias.

 Dessa forma lhes traziam a quantidade de ideias quando estivessem, com certa extrema, bêbados. Posteriormente, os autores sobre a importância de escrever: Falar é difícil, escrever é fácil, dizia o Émile Zola durante o julgamento a fim de tentar isentar o sujeito da acusação de matar o coronel. Não sei se vou continuar escrevendo romances, admitia o Truman Capote após ver os detentores por quem ele supostamente se apaixonava serem enforcados por pena de morte dada pelo julgamento.

 Dane-se o modo de escrever de modo acadêmico, a prosa espontânea abraça o coração que manda em mim, alegava o Jack Kerouac aos seus companheiros de viagem enquanto se aventurava pelas trilhas de ferrovia. O livro leva veracidade ao povo, acreditava o George Orwell sobre a sua preferência pela literatura política.

 A não ser escrever bem faz diferença, constatava o Hunter Thompson, sobre o seu modo de escrever jornalisticamente. Mencionei estes autores que escreviam bêbados para entenderem-se a bebida (sugestão de sucesso) e o leitor. Por isso, eu ando me perguntando se eu devo me embebedar após ser informado por meio dos artigos e das biografias sobre escrever embriagado que provoca sucesso, reflita o jovem, como se ele estivesse conversando com uma pessoa imaginária. Por que tenha sido a decisão mais difícil, ele parte para se embebedar para tentar escrever inspirado. Os dias se passam, Henri Bolano encontra-se internado numa clínica por conta da herrogama no fígado. O estado dele é grave, entretanto, o livro dele está pronto e sendo analisado (coisas de burocracia, mas segundo os editores a questão é otimista) pelas editoras. Ele terá de torcer para sair da clínica vivo para receber o seu primeiro livro em suas mãos, graças ao lance de ficar bêbado.