Gemas no lugar errado

No apartamento (para o proprietário muito precioso pela aparência arquitetônica), o jovem boêmio, cujo jeito dele lembrava o Woody Allen, mal agia tentando bater o ovo na frigideira, no entanto, sem sucesso (mais de doze tentativas).
Muitos ovos quebrados espalhados na cozinha.

Crack! Prac! Prec! Crackpracpreccrackpracprec, várias repetições sonoras enquanto o jovem tentava bater o ovo na frigideira.
Por outra parte, a mulher morena enfiada na poltrona lendo o livro “o ladrão de cadáveres agiotas”.

O jovem gritava da cozinha aos ouvidos da mulher:

– Não temos mais ovos, não consegui colocar um na frigideira porque todos foram colocados no lugar errado.

– No lugar errado? Como assim? – Perguntou a mulher que tirou os olhos da leitura como se escutasse o alarme.

– No chão. Sequer acertei um no alvo. Olha que eu tenho dificuldades para caminhar porque escorreguei muitas vezes enquanto eu tentava quebrar os ovos. – Explicou o boêmio.

– Deixa pra lá. Vamos comer os livros que compramos recentemente graças à existência dos sebos, que não machucam nossos bolsos e que nos fazem cheirar o mofo dos livros usados, o que é a culinária mais puta. Traga um rum pra nós bebermos.

Ele concordou. E eles foram à biblioteca interna com o rum retirado do balcão onde várias bebidas estavam.

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Me emocionei e você?

 Por Diogo Madeira

Eu não aguento ver a invisibilidade do escritor surdo Jorge L. Guimarães no meio do mundo dos surdos. Isso me dói, francamente. Tenha plena certeza que muitos surdos não sabem da origem dele, visto que a época dos anos 60 em que ele vivia, ainda não tinha internet. Aí a época dele era presa à ditadura. Talvez lá o compartilhamento de informações era restrito. E a editora (me é desconhecida) que publicou o livro não era de grande expressão. Por isso estou reforçando a importância do conteúdo dele (o livro “até onde o surdo vai”) que não foi divulgado o bastante. Vou repetir o que eu havia dito em outro texto: ele era o melhor de milhões de surdos que tentaram escrever literariamente porque Guimarães sabia se expressar na escrita, e porém, ao mesmo tempo, tinha se defendido das desavenças das pessoas a respeito do seu talento.

O que tem de interessante ele é a postura, sabendo lidar com todos os sentimentos em relação ao que caber a ele. Tenho me perguntado como ele conseguia mandar suas crônicas para o jornal O Globo. Até onde eu sei, este jornal é uma das principais referências de jornalismo na atualidade. Esses dias eu comentei disso com meus amigos. Eles também carregam a mesma dúvida que eu. Uma vez que a escassez de informações me deixa aflito, e estou tendo dificuldades para desvendar a origem dele. No Rio, eu indaguei aos meus amigos do Jorge, no entanto, nenhum deles questionados pôde ajudar, segundo ele, o Jorge é um elemento invisível. Ele tem razão. Para mim, ele é uma lagarta depois borboleta inalcançável. Ainda mais que eu me sinta na obrigação de colocar o escritor surdo na mídia a ponto de as pessoas saberem da sua caneta literária no meio do mundo dos surdos (não tenho a vontade de rotular cada surdo, tipo sinalizado, oralizado ou bilíngue porque não tenho querido perder meu tempo com isso).

…. p … par pa p

………….

O jovem boêmio parou de escrever na sua máquina de escrever.  Ele detestava do laptop, pois acreditava que a máquina de escrever o deixasse mais inspirado.

Amor? – chamou a sua esposa. Estou aqui, no meu escritório. – Respondeu o boêmio, eles moravam juntos, no entanto, de forma democrática, ou seja, não civilmente. Eles se conheceram numa festa. E eram apreciadores do amor livre. Ela trabalhava como roteirista de quadrinhos e o jovem tentava seguir a carreira de escritor. Eles eram surdos, porém, valorizavam a vida ao invés de ficarem presos numa única cultura (cultura surda).  Como está indo o seu livro? – Indagou a mulher. Devagar. Estou sem inspiração. – Replicou o jovem. Que tal nós cairmos fora pra tomar umas cevas até a inspiração te voltar? – Sugeriu a mulher. Por que não? Sorriu o jovem.

Amor, antes de sairmos, quero te mostrar uma coisa. O jovem pegou o livro extremamente amarelado que estava prestes a se despedaçar em razão da ação do tempo e estendeu-o à mulher: leia o prefácio do Jorge Bloch, que era grande camarada de Jorge. Eu tentei localizá-lo por meio do google, mas vi que numa notícia ele havia falecido faz tempão. Perdi essa oportunidade de obter as informações reais sobre o escritor surdo. Localizar a família dele é complicado, visto que lá no google não tem muita coisa. Vá para as últimas linhas, sugeriu o jovem.

Instruída, ao olhar para o jovem que estava aguardando a leitura dela, a mulher lia:

É uma simpatia ambulante, uma inteligência lúdica, um espírito de escólio. Quis que eu escrevesse algumas linhas para prefaciar seu livro, em que reune algumas de suas belas crônicas, de suas ideias limpídas, de seu ideal luminoso.

 

Basta que lhes conte um fato para que fiquem sabendo quem é.

 

Quando me procurou com seus artigos admiráveis eu observei:

 

– Jorge, se eu encontrar alguma coisa que eu considere errada, que eu considere imprópria, em seu livro, posso corrigir?

 

Jorge sorriu e com esse escrúpulo fabuloso, próprio de almas puras e privilegiadas, observou protestando:

– Mas se o senhor for emendar o meu livro… o livro não será mais meu!

 

Não toquei em nenhuma palavra, em nenhuma linha.

 

Não fiz nenhuma observação.

 

Só quero deixar aqui consignada a minha admiração por Jorge. Eu não diria que Jorge é um grande homem, apesar de sua surdez. Não. Talvez eu devesse dizer que ele é um homem admirável justamente por ser surdo. Por conservar dentro de sua alma generosa essa beleza, essa pureza, essa grandeza.

 

Todos os que lerem suas crônicas compreenderão o que quero dizer. Vocês verão que ele, feliz como é, jamais se preocupa com seu próprio problema. Reparem como vive o problema dos outros. Esse livro é um livro de bondade, de ternura, de luz, de compreensão.

 

Jorge, eu tenho um orgulho imenso de me considerar seu amigo. Como é que você sem ouvir consegue ouvir muita coisa?

A mulher, ao terminar de ler, ficou sem palavras. Você se emocionou? – Perguntou o jovem. Sim. – Respondeu aos prantos a mulher. Eu leio isso muitas vezes, e, desde então estou com essas palavras comoventes sobre o Jorge na minha cabeça. – Confessou o jovem. Você anda se inspirando nele para o seu livro, né? – Observou a mulher emocionada, ainda aos prantos. Ela deixou o livro, ainda aberto, no chão e conduzia o jovem para o quarto. Mudança de planos, em vez de irem no bar, eles foram fazer amor, celebrando o mistério de Jorge L. Guimarães.

Quem é Jorge Sérgio L. Guimarães?

Por Diogo Madeira

 

A metade geográfica do nosso Brasil não faz ideia de quem é Jorge Sérgio L. Guimarães e a outra sabe que ele escrevia crônicas para o jornal O Globo nos anos 50. Sobre o quê ele produzia artigos? Sobre as suas vivências. E a sua surdez. Eu posso afirmar que ele é muito misterioso para mim porque realizei pesquisas intensas no Google para obter informações sobre ele e não achei nada dele. Vou ser franco com vocês que atuam na área da surdez, os escritos dele me encantaram. O que ele escreveu é extraordinariamente admirável e ele chegou a me ‘hipnotizar’ em algumas crônicas. Em outro momento eu conversei com a minha amiga acerca do escritor que eu li, aí ela considerou ele como o misterioso surdo de 1961 – o livro foi lançado no mesmo ano e por sinal não teve grande repercussão nesta época e ainda não descobrimos o motivo do insucesso. É só questão de tempo. A despeito disso, eu comentei do livro que li com empolgação para ela que é doutoranda em lingüística, a qual eu admiro muito desde que nós nos conhecemos. De forma carinhosa, combinei com ela que eu darei uma cópia do meu livro, para acabar com a curiosidade que a está matando depois de falar do referido que deixara a minha amiga faceira. A conversa que eu havia com ela há pouco tempo me parecia empolgante porque nós interagimos sobre as novidades que aconteceram em nós nos últimos dias. Pois as nossas idéias são mútuas por nós termos o mesmo gosto pela leitura. O livro que eu li se chama ‘Até onde o surdo vai’. É raro para ser achado, eu diria. Foi um árduo trabalho para eu conseguí-lo por meio do site denominado Estante Virtual, uma rede de sebos. Ontem ele chegou na minha casa, em forma de carta simples – por mais que me surpreendesse, ele chegou de São Paulo à minha cidade em três dias. As folhas do livro são amareladas devido à ação do tempo, no entanto, o que me deixa mais empolgado ainda é a forma original como o livro é. A minha conclusão franca é que este livro que escritor surdo escreve é melhor por questões de conteúdo que eu já li, embora ele destacasse o método oralista em algumas crônicas, deixo que claro que não podemos culpar a época dele. O que importa, no meu ponto de vista, é que o escritor que lançou esse livro se sentia bem com o que pensava na hora de produção textual. Não tem como se segurar para não lhes deixar embaraçados. De alguma maneira eu também não me calaria. No livro ele falava um pouco de sua vida. Ele era funcionário do ministério da fazenda. Ele ainda destacava o empenho de sua mãe que o levara a aprender a falar e a ler nos lábios. Contudo, pouca coisa que ele abasteceu no seu livro. A pergunta me cutuca, ou melhor, nos toca: será que ele fez faculdade? De quê? Eu acredito que a sua origem acadêmica está longe de ser descoberta, por falta de dados. Mesmo que me pareça misterioso esse sujeito, não vou olvidar o que li regozijamente.

Devo me embebedar?

 Jack Kerouac. Entre os outros beats como ele também. Ficar bêbado acarreta inspirações. Por exemplo, eu estou, enquanto escrevo, me embebedando, diz o jovem escritor. Ele chama-se Henri Bolano, é formado em jornalismo e mestre em história de literatura. Nas horas vagas ele trabalha no seu primeiro livro – impresso em vez de publicar seus contos no seu blog a fim de buscar reconhecimento pelo seu trabalho fora da virtualidade.

 Pôr um papel na boca da minha máquina de escrever faz os meus dedos ganharem mais músculos. Escrever a mão também faz o punho sofrer tendinite. Nenhuma coisa é boa especialmente para quem escreve. Outra coisa, escrever esquisitamente, ou melhor, incorretamente significa um escritor diferencial, ainda mais com o seu próprio estilo. Como tenho alimentado muitos autores populares, diz o jovem, a respeito de ter sucesso na expressão na escrita literária, 85% dos escritores escrevem bêbados conforme eles alegavam em suas biografias.

 Dessa forma lhes traziam a quantidade de ideias quando estivessem, com certa extrema, bêbados. Posteriormente, os autores sobre a importância de escrever: Falar é difícil, escrever é fácil, dizia o Émile Zola durante o julgamento a fim de tentar isentar o sujeito da acusação de matar o coronel. Não sei se vou continuar escrevendo romances, admitia o Truman Capote após ver os detentores por quem ele supostamente se apaixonava serem enforcados por pena de morte dada pelo julgamento.

 Dane-se o modo de escrever de modo acadêmico, a prosa espontânea abraça o coração que manda em mim, alegava o Jack Kerouac aos seus companheiros de viagem enquanto se aventurava pelas trilhas de ferrovia. O livro leva veracidade ao povo, acreditava o George Orwell sobre a sua preferência pela literatura política.

 A não ser escrever bem faz diferença, constatava o Hunter Thompson, sobre o seu modo de escrever jornalisticamente. Mencionei estes autores que escreviam bêbados para entenderem-se a bebida (sugestão de sucesso) e o leitor. Por isso, eu ando me perguntando se eu devo me embebedar após ser informado por meio dos artigos e das biografias sobre escrever embriagado que provoca sucesso, reflita o jovem, como se ele estivesse conversando com uma pessoa imaginária. Por que tenha sido a decisão mais difícil, ele parte para se embebedar para tentar escrever inspirado. Os dias se passam, Henri Bolano encontra-se internado numa clínica por conta da herrogama no fígado. O estado dele é grave, entretanto, o livro dele está pronto e sendo analisado (coisas de burocracia, mas segundo os editores a questão é otimista) pelas editoras. Ele terá de torcer para sair da clínica vivo para receber o seu primeiro livro em suas mãos, graças ao lance de ficar bêbado.

Quebra-cabeça

Depois de engolir muitas letras, voltei muito inspirado para escrever como se entrasse na área a dribles – para praticar a ideia para este blog; eu devo, com muito empenho, completar o quebra-cabeça literário. Vamos introduzir pelos escritores mais respeitados, o Luís Fernando Veríssimo é um quebra-cabeça de 100 peças (claro, ainda a mais em virtudes de estar vivo) e o Fiódor Dostoievski de 200 peças. Mas por que haja diferença entre esses dois escritores na quantidade de peças? Vocabulário, talvez seja a resposta. É exato que eu apenas esteja observando sobre dois escritores na atualidade; o Veríssimo continua em ativa e o Dostoievski que deixou de existir, porém, se mantém aparecido postumamente em documentos literatos.  Como funciona o quebra-cabeça? Como vai descobrir a quantidade de peças (referente ao vocabulário)? Quanta dúvida. A questão é esforçar-se.  Você vai que é sua. Observar palavras para contar e colocar as novas na sua cabeça assim que forem conhecidas enquanto for procurar no dicionário. Conhecer palavras novas é um jogo muito divertido, isto me lembra do Sherlock Holmes. O herói nunca deixa de pesquisar antes que a curiosidade acabe com ele. Por fim, o que o quebra-cabeça é que a quantidade de palavras novas ou nunca vistas antes torna o leitor mais culto. Inclusive acaba com a monotonia enquanto não tiver algo para fazer. Divirtam-se com o modo diferente.