Matar a vaca

Os cabelos molhados pelo banho tomado no hotel – provavelmente o último momento do Poeta Z em terras que falam outra língua – e as cabeças bêbadas (não severamente) pelo vinho de proletário. Já de noite, o ar permanecia seco devido à estação do ano mais chata da Terra, os dois amantes, repletos de dúvidas quanto ao seu futuro, decidiram silenciar a fome e foram a uma pizzaria. Uma pizza média de marguerita e duas latas de coca-cola. Pedido anotado. O império da vaca amarela tomava os dois amantes. A lua cheia, as ruas sendo preenchidas por transeuntes para que não parecessem desertas e poucos postes de luz no calçadão comercial garantiam a pizzaria em que o casal estava como uma boa localização em termos de segurança e acesso. Faltavam duas horas pro Poeta Z partir. Enquanto isso, a mulher procurava em sua mente solução para poder fazer ele mudar de ideia. Tenho algo para ti – ele tirava da sua mochila – e acredito que possa te fazer enxergar melhor a hipocrisia desse mundo e separar a ficção da realidade. Um livro. Não daqueles de romance policial ou algo do gênero que entretinha cabeças de léguas problemáticas. Dum sociólogo. Polonês e radicado na Inglaterra. Já nas mãos femininas. Tenho que ler livros assim diante da crise que estamos tendo? Não tenho saco para isso enquanto não houver solução entre a gente. Por que não dá pra mulher mais intelectual que eu? Não sei se vou ler esse livro, já que é bem denso pela classe de palavras técnicas. Ela decidiu ficar com o livro e deixou claro pra ele que não se sabe quando vai lê-lo, traduzidos mentalmente na cabeça do Poeta Z: será colocado entre outros aparentemente abandonados na prateleira distante. A pizza chegou. E duas latas de coca-cola. Com isso os dois amantes ganhavam magnésio. As coisas em suas cabeças ficaram claras. Nesse sentido eles entenderam que o momento que estavam vivendo seria o último deles juntos. O livro que Poeta Z havia dado à mulher era uma espécie de matar a vaca seguindo os termos taoistas. O problema (passageiro, por favor) era que ela não entendeu o propósito do livro. As pessoas dela mais próximas não dançavam com o mundo selvagem tampouco o real e achavam que não seria preciso enfrentar o mundo selvagem – em que estamos. Poeta Z ainda botava a fé de que ela vai matar a vaca um dia. Antes de partir, ao chegarem à casa dela, ele se despedia da cachorra peluda, cuja cega exibia sua sensibilidade extrema.  

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[UMA EXPERIÊNCIA TESONA NAS ESTRADAS LONGAS]

Fui de ônibus. Na minha poltrona monstruosamente confortável. Inocentes oito horas de sono. Sem perturbações durante meus olhos em desligamento. De noite para dia.  Silêncio rico – ao menos para mim – apesar das rodas acelerando. Luzes azuis, tímidas, não incomodavam os passageiros envolvidos na realidade onírica. A tristeza era não ter como ler livros porque a lampadinha individual não colaborava da forma eficiente. Apenas vaga-lume seria superior a lampadinhas individuais pela intensidade cintilante. Por conta do ar condicionado eu estava usando minha blusa Adidas, na verdade mal usada por ser leve e ideal somente para atividades físicas, porém me sentia aquecido no bom sentido. 18 horas de viagem. De pés descalços, meus tênis Converse temporariamente abandonados sobre a minha mochila – imunda desde que comprei -, deixava-me ser tomado por um relaxo cósmico, uma sensação inexplicável. Ganhei uma comida decentinha. Uma miga com presunto e queijo, uma caixinha de suco de laranja e um pacotinho de biscoitos. que comida rica como pessoas que falam castelhano dizem, não é? Coisas típicas do lugar fora do Brasil. Fui uma vez ao banheiro dentro do ônibus para esvaziar minha bexiga de Wolverine. Faltavam umas quatro horas para chegar ao meu destino. Como eu estava sem suprimentos acadêmicos e literários pra ler, fui obrigado a apreciar paisagens passando por mim. E inclusive a traçar pensamentos, letras, letras e letras. Algo que não pôde ser feito oralmente. Se a comunicação fosse por telepatia eu seria o mais feliz do nosso sistema solar. Quatro horas de produção de divagações. Para o meu destino, havia apenas quatro personas além de mim. Quando nosso ônibus desembarcou em uma rodoviária, provavelmente a penúltima, eu joguei uma pergunta em um dos passageiros que estava, pelo corredor, ao meu lado: a próxima parada será aonde estamos indo? Sí, ele afirmou. Chegamos por lá em uma hora e meia, ele calculou. Meu destino é uma cidade repleta de cães-salsicha e literatura, basta jogar isso no bom Google. Dirigir coisa de quatro rodas por estradas e dar paradas em restaurantes e hotéis excêntricos seria mais legal, eu pensei. Melhor do que ficar parado por aqui. Mãos segurando o volante por horas contínuas colocaria a saúde em risco, talvez, eu raciocinei. Já na zona urbana do meu destino. Um finalmente feliz para mim. O calor do meu destino é irmão gêmeo da minha cidade. só falta examinar o DNA deles. ah: meu destino tem muitos hotéis com banheira. Levei minha boa hermes baby ultra laranja para pintar ficções – com pouco tempero de fatos extraído de meu corpo e minha mente caso necessário. Carimbo um portanto: não sou daqueles que não sabem produzir literatura, ou seja, que fazem só relatos baratos sem tesão literário/poético. Já instalado em um hotel eu, obviamente, com banheira, num apartamento bem espaçoso, integrando a cozinha, uma cama casal king, uma mesa de escritório e uma TV LED 39’. Comecei a escrever um conto na minha máquina de escrever, mas tive de parar porque o diamante humano que estava deitado na cama queria minha atenção. Acatei o pedido da minha musa com carinho. Pronto, duas taças cheias de vinho. O nome da empresa pela qual eu tinha viajado de ônibus é, uma charada para vocês, utilidade para arco em casamento com uma palavra do inglês referente a um meio de transporte.