Liga em alusão à Chloe

Mergulhado no passado, o jovem chamado Paulo Mattos aprecia pela janela a vista do mar depois de dar pausa ao seu trabalho preso à máquina de escrever. Ele é fanático por série chamada Smallville, que narra a história de um jovem chamado Clark Kent que está em busca de respostas sobre dominar seus poderes. Que coincidência, ele diz, a tal personagem que vive andando com o jovem kriptoniano, Chloe, uma mulher loira, lhe lembra da sua amiga pelo semblante e sorriso incomparável. A sua amiga atualmente mora numa cidade bem distante da sua, ou seja, a 200 km de onde ele está. Pois ela foi chamada do concurso para exercer a função de assessora de imprensa. Ela chama-se Liga. Há tanta comparação entre ela e a personagem: ambas elas têm paixão pelo jornalismo e possuem habilidade de escrever de forma rebuscada. Ele não se esquece do que ela disse a ele acerca de um jovem que estudava jornalismo com eles: sabe, Paulo, aquele cara é muito arrogante. Quanto ao dar oi a alguém como nós, para ele, é um cumprimento muito raro. Adoro a ver falar dessa maneira, ele diz a si próprio. Ele ainda se lembra de que em outra ocasião ela havia comentado do tal lance com ele: acho que você foi taxativo em relação à importância da flexibilidade quando se trata da música durante a reunião acadêmica. Taxativo. Palavra perfeita para quando alguém esteja em momento conturbado. Ela sabe administrar palavras a serem abastecidas na hora certa, ele pondera. Ele não tem visto ela desde a formatura dela, no entanto, ele sabe que a oportunidade de reencontro vai chegar no instante certo. O sol está se pondo. Vou voltar à máquina de escrever. Preciso terminar aquele trabalho. Senão o meu editor vai me demitir, ele pensa.

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Lembranças negativas

Bernardo Mattos, o jornalista, um homem de 39 anos, apesar de se mostrar jovem pela aparência. Olhos castanhos e cabelos de mesma cor. Ele residia num apartamento extremamente aconchegante em direção à Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Ele desconhecia os sons por nascer surdo devido à rubéola que a sua mãe teve durante a gravidez. Ele ignorava esse “problema clínico”, cujo termo citado frequentemente por médicos que não possuíam conhecimento cultural, tipo Stuart Hall e, talvez da linguística, aquele Saussure e porque levava uma vida normal e se sentia feliz por atingir várias metas mesmo sendo surdo (não deficiente auditivo porque é o termo médico) durante a sua vida – acadêmica e profissional. Levantara-se da cadeira de balanço dada pelo seu avô e fora à janela para apreciar a vista do mar, a sua preferida, surgindo umas imagens em sua cabeça: Escola de Surdos. Minha primeira escola. Não sei se foi boa essa experiência para mim – ele se perguntava, pois em sua época, sua escola era desorganizada pedagogicamente.

Mas na escola de surdos ele não completou o ensino fundamental porque foi mandado da escola de surdos para estudar na escola regular, visto que a mãe dele achava melhor, por razões de enfraquecimento pedagógico na escola de surdos. Não sei se foi boa para mim – em referência à escola regular, ele ainda se questionava e se filosofava graças aos autores essenciais aprendidos como Rimbaud na escola regular.

Aturdido psicologicamente, ele lembrava-se de que havia algumas coisas que não iam bem acerca do cotidiano escolar. Para acompanhar as matérias, eu precisava ficar sempre perto do meu colega para me sentir seguro no recebimento de informações porque a minha leitura labial não era suficiente para captar tudo. E o outro problema que me implicava era que a maioria dos professores não escrevia no quadro. Assim me perdia com frequência na transmissão de informações.

Foi um período muito duro para mim, ele falava a si próprio e se olhava nos vidros da janela como se estivesse conversando com o seu irmão gêmeo. Ele ressaltava que havia grande diferença entre a escola de surdos e a escola regular, em relação à aprendizagem e à comunicação: Como eu cheguei preparado à escola regular, graças ao empenho da minha mãe e a única barreira que eu enfrentei foi o entendimento entre mim e os professores apesar de eu obter a grande quantidade de informações. Na escola de surdos em que eu estudava até a sexta série foi uma suficiência comunicativa para poder me reconhecer como surdo, ou seja, construir a identidade surda, embora o ensino fosse fraco, por escassez de formação de professores bilingues. O jornalismo que escolhi depois de concluir o Ensino Médio foi muito Superman II para mim, por diagnosticar os erros em todos os sentidos para que eu me tornasse bom jornalista.

A partir disso eu optava por batalhar para que eu pudesse atingir minhas metas e obtive. Por isso, a língua de sinais veio me abraçar aos 18 anos de idade. Com este instrumento, eu passei a me comunicar de forma natural com pessoas surdas e ouvintes, para enriquecer a minha compreensão. Mas eu rejeitava o papo de ordem lingual (línguas de sinais como primeira língua e língua pátria como segunda língua) porque o melhor das hipóteses era a constância linguística, ao menos. Contudo, a língua de sinais era exclusivamente essencial, ou seja, se considerava um item valioso para completar a identidade do surdo ou conduzir o surdo a se sentir mais orientado na captação de informações, pensava o jornalista. Sem ela, o surdo certamente se encontraria inseguro psicologicamente, teorizava o jornalista enquanto via as ondas praticamente silenciosas – não havia banhistas porque o tempo estava feio.

A minha era muito Benjamin Button ou Forest Grump porque na minha época em que muitas pessoas desconfiavam da minha capacidade, ou melhor, da minha intelectualidade, por fato de eu ser surdo, recordava-se mais uma vez, orgulhosamente o guerreiro, por vencer várias barreiras que o cercassem durante a sua trajetória acadêmica à profissional. A escrita, especialmente para os surdos, considerava-se uma questão excepcional, por facilitar a sua passagem à sociedade majoritária. Acerca da leitura labial, também.

Fingir não ser surdo, ele refletia, seria um prejuízo extremo para a sua constituição. Ele exaltava que, a partir dela, a sua profissão cresceu de forma surpreendente além de saber escrever com precisão. E inclusive ganhara vários prêmios de melhor reportagem literária – ele lia muito Capote, Wolfe, Márquez, Barcellos e Morais que eram a referência do jornalismo literário. O sol está se pondo – ele dizia a si mesmo (ou melhor, as palavras saíram de sua mente) e não conseguia segurar as lágrimas que saíram dos seus olhos, lembrando-se das suas batalhas que lhe pareciam impossíveis, mas  foram vitoriosas. Ele ainda fazia a questão de que as crianças surdas deveriam ter o mesmo tratamento que ele recebera: Educação Bilíngue. Que eles saibam se expressar na escrita e na língua de sinais, e, se sintam bem acolhidos em dois mundos (dos surdos e dos ouvintes). Havia um ar de silêncio por uns minutos. Ele ficava parado. Finalmente ele se mexeu após ficar inerte por poucos minutos. Fechou as cortinas e foi se deitar na rede na varanda para dar continuidade à sua leitura: Literatura e Revolução, de Leon Trotski.