A porta na caneta

 

Por Diogo Madeira

A Caneta é jornalista e não para de colecionar prêmios de melhor jornalista. Segundo os críticos,  a escrita dela é muito “extraterrestre” no sentido de talento. Ela tem grande admiração por Vlado Herzog, o jornalista revolucionário assassinado no período da ditadura militar. Há boatos de que ela declina muitos convites – para ela considerados burgueses – para trabalhar na Globo, o que não lhe é pertinente. E o nome verdadeiro dela? Caneta. Coincidentemente, o seu nome se ampara ao jornalismo por gostar de escrever. Ela, por formidável que pareça, tem flexibilidade política, no entanto, sente-se bem trabalhando em jornais alternativos, especialmente relacionados à literatura, cuja paixão lhe é eterna desde pequena. A própria, além de escrever,  até desenha muito bem! (no mínimo faz ilustrações infantis). A Caneta é doutora em teoria da literatura. O seu tesão pelos estudos é perpétuo, algo que muitas pessoas não têm. (ela acha)

A literatura latina americana é a predileção dela por nascer no Brasil, bem no Rio Grande do Sul, que era a sondagem para transformá-lo num país, mas o negócio político não deu certo. Ela devora até quatro livros ao mesmo tempo. Mas quando tal palavra lhe é desconhecida? O dicionário ou o contexto frasal dá conta. Ela se dá bem nas entrevistas consideradas tensas, o que é a parte fascinante para seus colegas. Ela é eficiente em entrevistar personalidades fechadas. Por isso muitos jornais alternativos desejam contar com ela. Chega a hora da entrevista mais importante para ela. Ela tem de ir até a casa de uma mulher, segundo as fontes, considerada a informante autêntica sobre um escritor que se suicidara na época de 1960. Como de praxe, ela está preparada (sempre antecipa seu equipamento antes de ser chamada para o serviço jornalístico) para realizar a entrevista mais importante do sistema solar. Todavia, acontece que a mulher a ser entrevistada não deseja atender a porta, ou seja, bate a porta na cara da caneta depois de contemplá-la quando abriu lentamente a porta. A Caneta fica aborrecida porque tal coisa como essa nunca lhe afetara antes. Psicologicamente humilhada, ela cogita mudar de profissão. Mas para ela é difícil porque ela é uma caneta, cuja função que ela possa exercer é escrever textos.

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O livro de Luis Fernando Veríssimo no hotel Arpini

Depois da aula da Pós, justamente no dia do meu aniversário (de 30 anos), fui diretamente ao Hotel rio grandino denominado Arpini (optei por ficar em Rio Grande, pois tinha a aula bem cedo do dia seguinte para evitar o desgaste mental). Pude dizer que foi muito engraçado ficar num hotel no dia do meu aniversário, mas ao mesmo tempo muito legal.

Quando eu estava no meu quarto a ponto de me preparar para o banho, no entanto, recebi um torpedo da minha amiga dizendo:

Estamos aqui, desça. Beijos.

Respondi imediatamente: Vou descer. Beijos.

Tinha três pessoas me esperando: duas mulheres e um homem. Duas mulheres foram boazinhas comigo, menos o homem. Talvez ele não tivesse o mesmo olhar político delas, talvez o desejo delas de me ver fizesse ele se sentir arrastado até estar no meu hotel para cumprimentar um jovem acadêmico. Um embaraço evidente nele, sem sugestões para rever aquela atitude.

Diante delas, recebi abraços calorosos incessantes. Depois o homem fez questão de me abraçar – fiquem ligados, ele era fanático pela Fórmula 1.

Foram 32 minutos e 22 segundos de conversa porque estava muito tarde para eles, pois haviam vindo da faculdade também.

Depois dos abraços e beijos (para elas) distribuídos, subi até o meu quarto e fui logo ao banheiro.

Cheiroso e mais leve, atirei-me à cama e peguei meu livro que eu trouxe para me fazer companhia para exterminar o tédio: Comédias para se ler na escola, dado pela minha amiga, que era fã de Luis Fernando Veríssimo também.

Praticamente engolido o livro em uma hora e poucos minutos por mim, peguei no sono. A ideia de ficar num hotel foi o melhor momento de ter feito mais um ano de vida. Graças ao Veríssimo, acordei inacreditavelmente renovado.

A Grande Princesa

   Aquela garota europeia. Aquela garota alemã. Ela de repente resolveu sumir do mapa digital.  Mas minutos depois ela apareceu. Minutos depois ela desapareceu. Surgiram uns boatos dizendo que ela estaria indo para a lua na qual o astronauta Neil Armstrong havia pisado pela primeira vez em 1969. Ela reapareceu, mas logo se dissipou como se fosse uma nuvem se desmaterializando. Mais uma vez, as fontes (confiáveis) afirmaram que ela estaria na lua construindo uma espécie de casa (os telescópicos altamente tecnológicos captaram uma coisa além da garota na lua). Uma amiga da garota que era insone confidenciou ao detetive que ela sonhara em ter um lugar tranquilo que uma praia. Os dias se passaram, sem notícias dela. As notícias se espalhando por todo planeta de que a garota supostamente teria um bebê conforme as imagens tiradas pelos telescópicos. Aquela notícia fazia com que os pais dela desmaiassem. Caso a suposição estivesse confirmada, quem era o pai? Elvis Presley foi descartado. Vários homens com quem a garota havia se relacionado também foram negados. Quando a polícia e os especialistas em vida extraterrestre se cansaram, o caso da garota foi arquivado, dado como assunto encerrado. A garota alemã era a Grande Princesa, talvez ela fosse a primeira mulher a ter bebê na lua.

Fica aqui meu carinho por escrito

     Todos sabem que escritor é sinônimo de produzir ideias literárias. Naquele dia em que se realizou o encontro (mais incomum para os que o jovem boêmio conhecia).  A mulher que o jovem ia encontrar era meiga e deslumbrante na questão da literatura. Ela era metida a escritora, e os escritos sempre o impressionavam. Ela era tão invocável quando se tratava dos assuntos complexos. O corpo dela, conforme o ponto de vista do jovem, era uma poesia indígena. O nome dela era Lana Lane. Ela e o jovem boêmio foram eventualmente inimigos em razão das desavenças ideológicas, no entanto, tempos depois, eles se amadureceram bastante graças à aspiração de letras literárias. Por isso que eles voltavam a se falar, embora as desavenças persistissem, porém controladas.  Eles se tornavam amigos.

    Finalmente Lana Lane e o jovem boêmio combinavam de tomar café a ponto de se verem pessoalmente pela primeira vez, o que era a coisa que causava medo às pessoas distantes (sabem como é, né?). Como eles moravam em estados diferentes, o jovem boêmio viajava ao estado dela – não por ela, sim para curtir as suas férias antes de retornar ao trabalho -, e durante a estada dele na terra da garoa eles conseguiam marcar um encontro via whatsapp, uma benção tecnológica. Era uma tarde ensolarada. Na casa das flores perto da avenida acordada (interpretada como movimentada). Lana Lane chegava primeiro, e o jovem boêmio precisava mandar um torpedo a ela avisando que ia se atrasar um pouco. Mas o tempo de atraso era pequeno devido à existência do metrô, cujo transporte facilitava muito a vida de muitos. Aparentemente ansioso, o jovem boêmio se encontrava com Lana Lane. Os sorrisos deles se falavam por uns segundos ao passo que a distância entre eles se reduzia. Depois eles emitiam tais coisas convencionais tipo oi, tudo bem, tudo certo e vamos. E depois da troca de abraços, eles foram ao local gastronômico cultural (aquele prédio era internamente híbrido, museu e cafeteria). A ideia da troca de presentes literários que eles haviam sugerido foi concretizada perante os cafés cariocas – café típico da terra da garoa.

    O café estava forte, mas foi açucarado pelo jovem boêmio. Lana Lane, ao contrário do seu amigo, curtia café forte. Começavam a conversar de verdade, mas a felicidade tomava a conta deles, visto que eles haviam se falado virtualmente por muitos anos. Kubrick foi o assunto momentâneo. Eles concordavam que Laranja Mecânica era o melhor filme do Kubrick em razão da criatividade cinematográfica. O jovem boêmio pedia outro café, e quando o café dele chegou Lana Lane que tinha jeito de brincalhona dava dezenas de saquinhos de açúcar ao seu amigo, pois percebia que ele não curtia café forte, ou melhor, café sem açúcar. Eles tinham uma coisa em comum: se formaram em Comunicação Social. Inclusive exibiam a intimidade aguda com a literatura e o cinema. Ela pegava o bloco de notas do jovem boêmio a ponto de querer deixar um registro:  “só para o caderno não ter sido em vão, na última instância… fica aqui meu carinho por escrito!”. Depois do feito, eles brincavam de tirar fotos, registrando os momentos do encontro – o jovem boêmio o considerava um dos melhores encontros que ele já teve em sua vida. Ao se despedirem, eles se abraçavam intensamente, cujo contato físico indicava o prazer galáctico. No seu apartamento, enfiado na sua máquina de escrever,  a tese que o jovem boêmio havia concluído: Os olhares opostos fortalecem a amizade deles graças à penetração dos que tinham se encontrado há pouco tempo à literatura de Milan Kundera. Obrigado, Kundera. Se não fosse por você, eu não conheceria Lana Lane.  O jovem boêmio fechou o texto com muita alegria. Antes de se atirar na cama, ele ainda dizia a si mesmo como se estivesse conversando com um fantasma: acho que não vou conseguir me esquecer daquele encontro mágico.  Ele até cogitava colocar o seu bloco de notas no qual Lana Lane havia deixado o seu registro num cofre, o que, para ele, era a coisa tão valiosa.

Organismo concilitário

Em meio a praia cheia de banhistas, havia uma mulher morena. Tinha uma tatuagem no ombro direito, cujo detalhe chamava a atenção dos homens. Ela percorria muitos quilômetros até achar o espaço vazio, ou seja, onde não tinha banhistas. Ela se despiu do seu biquíni preto e o deixou na areia como se a folha caísse. A bela mulher enigmática se dirigia direto ao mar a ponto de amenizar o seu corpo aquecido pelo sol. A sua entrada se transformava em sons aquáticos. Ela mergulhou feito golfinho. De olhos fechados dentro do mar o lance de prender a respiração a fortalecia. De repente apareceu um homem moreno ao seu redor, que não era estranho para ela. Eles se aproximavam, bem prudentes. Nenhuma emissão de pronúncias, e o clima, apesar de estarem presos no mar, estava ficando quente. Os corpos se grudavam como se eles se abraçassem de medo. Ao ativar a excitação, eles se beijavam e introduziam a penetração orgástica. Os lábios grudados tornavam-se oxigênio natural, deixando os amantes aliviados das dores sentimentais.

Gemas no lugar errado

No apartamento (para o proprietário muito precioso pela aparência arquitetônica), o jovem boêmio, cujo jeito dele lembrava o Woody Allen, mal agia tentando bater o ovo na frigideira, no entanto, sem sucesso (mais de doze tentativas).
Muitos ovos quebrados espalhados na cozinha.

Crack! Prac! Prec! Crackpracpreccrackpracprec, várias repetições sonoras enquanto o jovem tentava bater o ovo na frigideira.
Por outra parte, a mulher morena enfiada na poltrona lendo o livro “o ladrão de cadáveres agiotas”.

O jovem gritava da cozinha aos ouvidos da mulher:

– Não temos mais ovos, não consegui colocar um na frigideira porque todos foram colocados no lugar errado.

– No lugar errado? Como assim? – Perguntou a mulher que tirou os olhos da leitura como se escutasse o alarme.

– No chão. Sequer acertei um no alvo. Olha que eu tenho dificuldades para caminhar porque escorreguei muitas vezes enquanto eu tentava quebrar os ovos. – Explicou o boêmio.

– Deixa pra lá. Vamos comer os livros que compramos recentemente graças à existência dos sebos, que não machucam nossos bolsos e que nos fazem cheirar o mofo dos livros usados, o que é a culinária mais puta. Traga um rum pra nós bebermos.

Ele concordou. E eles foram à biblioteca interna com o rum retirado do balcão onde várias bebidas estavam.

Falcão e Minhoca

Por Diogo Madeira

Falcão vivia no céu e Minhoca na terra. Eles tinham suas desavenças quando se tratava da política. Todavia, os pensamentos do Falcão não agradava a maioria dos bichos, pois lhes eram muito impertinentes. Sem base. Os da Minhoca, bastante paradoxos aos da ave, conquistavam a confiança dos bichos. O fato era, logicamente, que Minhoca era o bicho mais inteligente do planeta que Falcão. Dentro do solo, ela tinha uma biblioteca invejável que muitos bichos sonhavam em ter uma dessas. Entre as nuvens, Falcão se acolhia em um ninho – inacessível a qualquer bicho, exceto as outras espécies de ave – que estava estabelecido em uma montanha mais alta.

   Aturdido, Falcão decidira armar um plano diabólico para atacar os bichos: fazer um discurso acerca do cotidiano dos bichos. O discurso foi feito em vídeo e o próprio Falcão o postou no youtube, que era um espaço para vídeos independentes. Rolou um compartilhamento meteórico em toda a selva. Os bichos ficaram indignados e não sabiam se defender.

  Coruja conseguia alertar a tempo a Minhoca da ameaça do Falcão. O bichinho mais inteligente estava em casa lendo o livro intitulado 1984 escrito por George Orwell, e a campainha tocou. Foi atender à porta e Coruja estava, apavorada. Consolada pela Minhoca, foi levada à sala de estar e contava doidamente a ela:

Falcão nos atacou! Ele fez um discurso terrível em vídeo! E está no youtube e virou uma polêmica pra todos nós! Ele nos chamou de primitivos por não sabermos distinguir a linguística animal! Ele falou isso? Indagou Minhoca, curiosa. Sim, sugiro que você deva contemplar o vídeo aterrorizador. Recomendou Coruja. Obedecida, Minhoca foi ligar o seu laptop e em seguida, acessava à internet a ponto de entrar no youtube. Ela ficou perplexa depois de ver o vídeo e mal conseguia se pronunciar: Por que ele fez uma dessas coisas? Digamos, não entendemos a intenção dele. Vou solicitar um duelo intelectual com ele. Disse decididamente Minhoca.

   A solicitação foi feita em forma de carta. Pombo foi levá-la até o ninho do Falcão. Ao ler a carta, Falcão relutava em aceitar o convite da Minhoca em razão da sua intelectualidade inferior à dela. Pois Falcão havia criticado que a língua animal era muito pobre por ser incapaz de formar palavras e inclusive destacava que a língua dos bichos não era válida para a compreensão plena e ainda citava o exemplo de que um bicho não fazia ideia do que era uma boca.

  Três sois depois sem resposta à Minhoca, dessa vez, o mandado jurídico foi enviado ao ninho do Falcão graças ao empenho do Urso do STS – Supremo Tribunal Selvagem. Assustado, praticamente impossível de recusar o convite, Falcão respondia por escrito, marcando o duelo com Minhoca. A resposta dele deixava os bichos vibrados de felicidade, pois sabiam que Minhoca era a grande esperança para silenciar os bicudos dele.

   O grande dia chegou. Muitos bichos apareciam pontualmente conforme o horário combinado. O duelo ficava no meio das bananeiras, dois intelectuais se sentavam em folhas grandes improvisadas como cadeiras e Coruja como mediadora, ou seja, presidente do duelo. Milhares de bichos ficavam atentos ansiosamente ao duelo mais importante da história do animal. Antes de começar a guerra intelectual, Coruja saudava aos bichos presentes: Boa tarde, senhores e senhoras. A presença de vocês certamente vai prestigiar nossos intelectuais. Quero que vocês saibam que, neste momento peculiar, sou imparcial, pois vou coordenar o debate. Falcão, está pronto? Minhoca?

Sim! – Falcão e Minhoca emitiam a mesma expressão.

Coruja fez uma pergunta ao Falcão: por que acha a nossa língua pobre?

   Aparentemente nervoso, Falcão mal respondia: porque é uma língua precária, digamos, não é similar a demais línguas devido à ausência da estrutura gramatical. Ao meu ver, ou melhor, ao ver da comunidade externa – em referência aos humanos -, é uma língua minoritária que é incapaz de conceituar palavras. Está equivocado! Protestou Minhoca. Vai dizer que a língua indígena não é relevante? Sugiro que você faça uma revisão no seu conhecimento da linguística, pois você é professor de língua animal. As suas teorias não estão claras, digamos, são como pontos escuros, incapazes de ser acessíveis a qualquer bicho e tampouco à comunidade externa, visto que os humanos são sensíveis como os bichos. E você não.

Coruja à Minhoca: por que acha que a língua dos bichos não é minoritária?

É minoritária! – Corrigiu Minhoca. No sentido da linguística, qualquer língua minoritária é valorizada sim, assim como as línguas indígenas. A Libras, a língua dos surdos, é relevante, por exemplo. Portanto a nossa língua possui regras gramaticais sim apesar de estar carece de palavras específicas. O problema que está em nossa direção é Falcão, que não quer ser como nós. Coruja, considere essa minha resposta como réplica final a esse debate. Exijo votação para definir a permanência do Falcão em nossa comunidade. Já que estamos em democracia.

  O pedido da Minhoca foi atendido, ou seja, os bichos que estavam presentes apoiavam a ideia do bicho mais inteligente. A votação foi realizada pacificamente. O número de votos contra a permanência do Falcão foi grande. O ameaçador foi condenado e o ninho dele foi desocupado além de ser exonerado da universidade animal. A vitória da Minhoca sobre Falcão virou manchete em todos os veículos. Doze luas depois, os bichos escolhiam Minhoca como Presidente da FA – Federação Animal. Graças à ela, a língua dos bichos foi citada constantemente por países de primeiro mundo.