Notas de esclarecimento tardio

Mais uma crônica que estou escrevendo. Ao meu lado, uma taça de vinho uruguaio e a tigela cheia de pedaços de queijo colonial. O reflexo do texto no Uuorodi [Word] – nas lentes dos meus óculos como se eu estivesse concentrado por completo nisto. Imagina uma fotografia com cores mais vivas. Eu, de pijama listrado, confesso que, abraçado na necessidade de esclarecimentos à desconfiança dos que convivem comigo em ambientes profissionais e pessoais independente do grau de intimidade, preciso dizer umas coisas [embaraçosas?]. O que eles veem em mim, conforme a minha suposição, é o fato de eu ser indiferente a surpresas, homenagens e afins. O motivo desta crônica é o batedor dentro do meu corpo, fazendo barulhos internos como se estivesse me pedindo para desembocar algo, embora eu seja surdo – não faço ideia de como é o som dum passarinho, pra variar. Houve um incômodo em mim por dois anos. Em total silêncio. Foi o que acabou sendo mal interpretado por muitos.

Elenquei três fatos, com certeza, marcantes em minha vida, ainda em 2017:

Em fevereiro de 2017, durante o churrasco realizado por meus alunos num lugar que abriga iates, tal evento era celebrar o término do curso da forma coletiva, com os alunos e professores incluindo eu. Estava um puta [tá correto sim, mas para o maldito Word não] lindo dia. O céu daquele dia era puramente anil, que deixaria o Van Gogh doido se ele estivesse conosco.  Muita carne sobre o carvão aceso. O isopor cheio de bebidas – sobretudo cervejinhas – à mostra à margem do canal São Gonçalo [uma breve aula de semântica: canal pode ser entendido como uma fronteira ou um bloco ou um rio, no caso do referido, um rio.] a ser atacado em breve, já que o sol dava a cara de estar a fim de queimar nossas peles; em pleno verão. Começou a rodada de brincadeiras organizada pelos meus alunos, eles me escolheram para ser patrono deles. O anúncio foi em um balão que eles me deram. Dentro do balão havia um papelzinho. Eu fiz questão de apertá-lo. Soltou um bum. O papelzinho caído na grama gorda que lembra aqueles campos de futebol pela maciez. Abaixei-me e peguei o papelzinho. Abri-o, e as poucas letras aos meus olhos, mas chamativas: Tu és nosso patrono! Quando terminei de ler desci o papelzinho dos meus olhos. Meus alunos estavam esperando minha reação. Naquele episódio eu não consegui externar minha emoção que havia aflorado dentro de mim. Meus alunos, já que vocês estão me lendo agora; eu, sim, fiquei muito emocionado logo depois que li aquele papelzinho. Vou lhes contar uma coisa: sempre tive inveja da minha mãe por ter sido homenageada por seus alunos em muitas ocasiões. Inveja no bom sentido, ok? Meus alunos, vocês moram no meu coração pra sempre. Fico eternamente grato por isso. Não se esqueçam do meu discurso que fiz em nossa formatura.

Em 27 de março de 2017. Justamente no dia do meu aniversário.

Na aula de Libras [Língua Brasileira de Sinais, ok? Senão William Stokoe ficaria magoado], meus alunos fizeram uma festa surpresa para mim quando voltei do banheiro durante a hora do intervalo. Uma refeição bacana, daquelas capazes de empanturrar nossos estômagos. Só que não consegui externar minha felicidade para eles. Uns dias depois, tomei o conhecimento, através da minha coordenadora, de que eles estavam tristes com a minha indiferença. Queridos, saibam que fiquei muito feliz, sim, com essa festinha que vocês planejaram.

Minha namorada fez uma postagem super fofa e sincera para celebrar meu aniversário – mesmo à distância – com uma caricatura minha para mim no Facebook. Mesmo que ela fizesse parte da minha vida íntima, não consegui expressar minha felicidade de forma direta a ela. Tive de administrar minhas horas para amenizar suas mágoas pelo fato de eu ter estado indiferente a essa surpresa. Amor, saiba que eu amei a tua postagem. Muito fofa! Fiquei muito emocionado mesmo logo após ter visto a tua.

O problema é que sou um sujeito introvertido, o que me impede de expressar alguma coisa com espontaneidade. Aliás, com exceção da minha namorada, agora, por meio deste texto, vocês estão começando a me conhecer melhor.

Em todas essas surpresas e homenagens, eu mostrei, sim, minha felicidade invisível.

Vai meu super obrigado para vocês.

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Matar a vaca

Os cabelos molhados pelo banho tomado no hotel – provavelmente o último momento do Poeta Z em terras que falam outra língua – e as cabeças bêbadas (não severamente) pelo vinho de proletário. Já de noite, o ar permanecia seco devido à estação do ano mais chata da Terra, os dois amantes, repletos de dúvidas quanto ao seu futuro, decidiram silenciar a fome e foram a uma pizzaria. Uma pizza média de marguerita e duas latas de coca-cola. Pedido anotado. O império da vaca amarela tomava os dois amantes. A lua cheia, as ruas sendo preenchidas por transeuntes para que não parecessem desertas e poucos postes de luz no calçadão comercial garantiam a pizzaria em que o casal estava como uma boa localização em termos de segurança e acesso. Faltavam duas horas pro Poeta Z partir. Enquanto isso, a mulher procurava em sua mente solução para poder fazer ele mudar de ideia. Tenho algo para ti – ele tirava da sua mochila – e acredito que possa te fazer enxergar melhor a hipocrisia desse mundo e separar a ficção da realidade. Um livro. Não daqueles de romance policial ou algo do gênero que entretinha cabeças de léguas problemáticas. Dum sociólogo. Polonês e radicado na Inglaterra. Já nas mãos femininas. Tenho que ler livros assim diante da crise que estamos tendo? Não tenho saco para isso enquanto não houver solução entre a gente. Por que não dá pra mulher mais intelectual que eu? Não sei se vou ler esse livro, já que é bem denso pela classe de palavras técnicas. Ela decidiu ficar com o livro e deixou claro pra ele que não se sabe quando vai lê-lo, traduzidos mentalmente na cabeça do Poeta Z: será colocado entre outros aparentemente abandonados na prateleira distante. A pizza chegou. E duas latas de coca-cola. Com isso os dois amantes ganhavam magnésio. As coisas em suas cabeças ficaram claras. Nesse sentido eles entenderam que o momento que estavam vivendo seria o último deles juntos. O livro que Poeta Z havia dado à mulher era uma espécie de matar a vaca seguindo os termos taoistas. O problema (passageiro, por favor) era que ela não entendeu o propósito do livro. As pessoas dela mais próximas não dançavam com o mundo selvagem tampouco o real e achavam que não seria preciso enfrentar o mundo selvagem – em que estamos. Poeta Z ainda botava a fé de que ela vai matar a vaca um dia. Antes de partir, ao chegarem à casa dela, ele se despedia da cachorra peluda, cuja cega exibia sua sensibilidade extrema.  

[UMA EXPERIÊNCIA TESONA NAS ESTRADAS LONGAS]

Fui de ônibus. Na minha poltrona monstruosamente confortável. Inocentes oito horas de sono. Sem perturbações durante meus olhos em desligamento. De noite para dia.  Silêncio rico – ao menos para mim – apesar das rodas acelerando. Luzes azuis, tímidas, não incomodavam os passageiros envolvidos na realidade onírica. A tristeza era não ter como ler livros porque a lampadinha individual não colaborava da forma eficiente. Apenas vaga-lume seria superior a lampadinhas individuais pela intensidade cintilante. Por conta do ar condicionado eu estava usando minha blusa Adidas, na verdade mal usada por ser leve e ideal somente para atividades físicas, porém me sentia aquecido no bom sentido. 18 horas de viagem. De pés descalços, meus tênis Converse temporariamente abandonados sobre a minha mochila – imunda desde que comprei -, deixava-me ser tomado por um relaxo cósmico, uma sensação inexplicável. Ganhei uma comida decentinha. Uma miga com presunto e queijo, uma caixinha de suco de laranja e um pacotinho de biscoitos. que comida rica como pessoas que falam castelhano dizem, não é? Coisas típicas do lugar fora do Brasil. Fui uma vez ao banheiro dentro do ônibus para esvaziar minha bexiga de Wolverine. Faltavam umas quatro horas para chegar ao meu destino. Como eu estava sem suprimentos acadêmicos e literários pra ler, fui obrigado a apreciar paisagens passando por mim. E inclusive a traçar pensamentos, letras, letras e letras. Algo que não pôde ser feito oralmente. Se a comunicação fosse por telepatia eu seria o mais feliz do nosso sistema solar. Quatro horas de produção de divagações. Para o meu destino, havia apenas quatro personas além de mim. Quando nosso ônibus desembarcou em uma rodoviária, provavelmente a penúltima, eu joguei uma pergunta em um dos passageiros que estava, pelo corredor, ao meu lado: a próxima parada será aonde estamos indo? Sí, ele afirmou. Chegamos por lá em uma hora e meia, ele calculou. Meu destino é uma cidade repleta de cães-salsicha e literatura, basta jogar isso no bom Google. Dirigir coisa de quatro rodas por estradas e dar paradas em restaurantes e hotéis excêntricos seria mais legal, eu pensei. Melhor do que ficar parado por aqui. Mãos segurando o volante por horas contínuas colocaria a saúde em risco, talvez, eu raciocinei. Já na zona urbana do meu destino. Um finalmente feliz para mim. O calor do meu destino é irmão gêmeo da minha cidade. só falta examinar o DNA deles. ah: meu destino tem muitos hotéis com banheira. Levei minha boa hermes baby ultra laranja para pintar ficções – com pouco tempero de fatos extraído de meu corpo e minha mente caso necessário. Carimbo um portanto: não sou daqueles que não sabem produzir literatura, ou seja, que fazem só relatos baratos sem tesão literário/poético. Já instalado em um hotel eu, obviamente, com banheira, num apartamento bem espaçoso, integrando a cozinha, uma cama casal king, uma mesa de escritório e uma TV LED 39’. Comecei a escrever um conto na minha máquina de escrever, mas tive de parar porque o diamante humano que estava deitado na cama queria minha atenção. Acatei o pedido da minha musa com carinho. Pronto, duas taças cheias de vinho. O nome da empresa pela qual eu tinha viajado de ônibus é, uma charada para vocês, utilidade para arco em casamento com uma palavra do inglês referente a um meio de transporte.

Luto elétrico

Muitos postes de luz em posição reta com a incumbência interminável. Ligados para iluminar as estradas. Eles se comunicavam de uma forma incompreensível. Inalcançáveis para humanos. A tragédia entrou em ação. Um deles foi atropelado por um carro, movido pela embriaguez humana.

O poste de luz, caído e destruído, foi levantado pelos homens por meio do guindaste.

Muitos gritos tristes em silêncio, o que eram compreensíveis somente entre os postes de luz.

Como forma de luto, os postes de luz decidiam não cumprir a incumbência de iluminar as estradas.

Muitos carros foram destruídos.

Essa escuridão repleta de silêncios fenomenais se traduzia em um final raivoso.

LENDO GIBI EM TRÊS ÉPOCAS DIFERENTES

 

Aos 7 anos

Em 1987.

O garotinho adorava ler gibis. Preferencialmente do Incrível Hulk.

À espera do ônibus, o garoto de 7 anos tentava folhear gibis mesmo que impedido pela mulher da banca. Todavia, ele insistia em ler mesmo sem comprar porque não tinha nenhum centavo pra comprar um gibi. A mulher que perdeu a paciência o atacou, mas os vinis que ele empurrou ao correr caíram.

O garotinho já estava com a sua mãe e a mulher foi ao redor deles:

Moça, seu filho quebrou todos os vinis quando ele escapou acabou empurrando.

Não quero mais vê-lo.

Esse garotinho não recebeu castigo.

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Aos 11 anos

O ano em que Collor caiu por conta da corrupção.

No verão, a barraca instalada no acampamento da praia do Cassino, o garotinho de 11 anos ficava na revistaria de tarde até a noite lendo quase todos os gibis e a mãe dele teve de ir até lá buscá-lo. A revistaria foi a zona de conforto pra ele porque não gostava de praia.

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Aos 24 anos

Apenas era um cara que trabalhava pra pagar as contas além de estudar a ponto de se tornar um profissional qualificado.

Ele fazia questão de ler gibis escondido da sua namoradinha porque ela não gostava de ler.

…………………

….

….XXXXXX

 

Pausa.

Eu adoro ler gibis – Pensou Jovem Boêmio, que estava prestes a sair da sua máquina de escrever pra pegar uma cerveja gelada, na qual ele havia escrito um conto sobre a importância de ler gibis.

PRESENCIEI AQUELE EPISÓDIO ILUSÓRIO

Por Diogo Madeira

Um dia bem quente e empoeirado em que eu estava dentro do ônibus, bem coberto de excesso de areia por causa das estradas próximas da praia que ainda não foram asfaltadas (até hoje) voltando da escola (eu chamava de esquisita por não me entender com aqueles colegas que sequer liam gibis) à minha casa. De repente uns caras (dava pra notar que, pelos adesivos partidários nas roupas deles, eram colaboradores da campanha do Collor) apareciam no meu ônibus distribuindo materiais escolares porém com a marca do candidato presidenciável às crianças e inclusive a mim. Mas aquelas crianças estavam iludidas. De verdade. Eu não. Ou seja, pelo material escolar nas minhas mãos eu tive um péssimo pressentimento acerca do império do Collor, mesmo que estivéssemos na primeira eleição direta após o fim da ditatura militar, e ainda convivia com pessoas de esquerda desde que eu saí do berço. Ainda teve um dia chuvoso em que uns caras aparentemente comunistas pelas roupas e barbas, coisas típicas de comunista conforme eu via muitos filmes sobre isso, na minha casa se reuniam com a minha mãe. E com o mate indispensável também. Eu apenas os estava observando e, ao mesmo tempo, lendo meus gibis da turma da Mônica. Mas naquele momento a minha leitura labial ainda estava em fase de desenvolvimento, ou seja, ela tinha dois meses de vida em termos de linguagem, aí eu não podia ler aqueles lábios revolucionários. Se eles tivessem escrito do que estavam falando, eu certamente entenderia (será?) perfeitamente. Eu tinha oito anos e tive a oportunidade de apreciar o período da primeira eleição direta tão agitada, justamente por nascer no fim da ditatura militar. Eu estava ao lado da minha mãe que trabalhava como mesária contemplando muitos eleitores chegando e indo embora. Ela me instruía a não mencionar o nome do nosso candidato presidenciável (Lula) aos eleitores, o que era proibido em período de eleição. Eu via pela primeira vez o debate do segundo turno entre Collor e Lula na TV, embora eu não entendia nada, é óbvio. Porque naquela época ainda não tinha a tal acessibilidade para quem não escutava. Contudo, a despeito disso, dava pra perceber que eles estavam bem tensos como se não estivessem acostumados com esse tipo de debate, ainda mais em público, ou melhor, ao vivo, cuja ocasião histórica fora transmitida pela Rede Globo ao Brasil inteiro. Dias depois, a minha mãe me dizia que Collor venceu. Porque o povo estava iludido pelos materiais escolares distribuídos pelos colaboradores do Collor, eu pensava. Atualmente eu tenho 34 anos e vejo Aécio como Collor por distribuir beijos em mãos, como uma forma de ilusão. […] […] […] Pausa. Jovem Boêmio para de escrever seu novo romance no qual ele usa as conversas com seu amigo que é bastante politizado. Seu amigo autorizou que as conversas sobre a vida dele no meio da política fossem inseridas no novo romance do Jovem Boêmio. O intuito do Jovem Boêmio de lançar seu novo romance é acabar com a ilusão do tucanismo sobre pessoas que têm mente frágil. Seu amigo, mesmo sendo surdo, no entanto, Jovem Boêmio não o vê assim, sim como qualquer pessoa em todos os sentidos.

Diadosurdo? Surdodioado? Dosurdodia? Dia do Surdo?

Por Diogo Madeira

 

    O jovem boêmio acabara de ter uma ideia, pra escrever sobre um surdo perambulando pelas ruas, por causa daquele dia do surdo (não surdo-mudo!). Ele foi correndo até o seu apartamento. Antes de sentar à sua máquina de escrever ele sacava três latas de cerveja da sua geladeira, que lembra uma dos anos 50 pelo design. O papel que ele havia começava a ser tocado pelas letras de metal, acarretando em barulhinhos proletariados:

  Um surdo, de 28 anos, aparentemente moreno, para vocês saberem, era super comunicativo. Ele não parava de render boas conversas em bares boêmios, o que era considerado o querido do bar pelas pessoas que frequentavam os mesmos bares que ele. Não era unicamente, que, ele usava a técnica estratégica: leitura labial. Mas também se expressava (muito bem, fala sério!!) tanto na escrita quanto na língua de sinais (eu quase ia escrever linguagem de sinais, o que era incorreto para os que atuam na área de surdez ou linguística). Mas ele se sentia orgulhoso de ser surdo? Ele não se manifestava a respeito. Mas dava pra notar que ele fazia questão de celebrar o dia do surdo sim.

  Mas que este dia não era daqueles idiotas, pois foi baseado em movimentos revolucionários ou sócio-culturais pelos surdos militantes, assim como o dia da mulher, para vocês entenderem melhor. Ele nasceu surdo conforme os médicos diagnosticavam e estudava em melhores escolas graças à educação precisa dada pelos seus pais. E por ser notado como surdo bilíngue (em Língua Portuguesa e Libras) sempre figurava em primeiros lugares em concursos literários – tanto em língua escrita quanto em língua de sinais, pois ele era craque em redação (em língua portuguesa!) segundo seus amigos mais próximos. Ele baixava a bola de que a língua de sinais prejudicaria a língua pátria porque entendia que era necessário sempre deixar a sua mente afiada, ou seja,  via o bilinguismo como essência linguística (embora não desnecessariamente obrigatório) para surdos. Sem falar que ele conquistava muitas mulheres surdas – sinalizadas, oralizadas, bilíngues e até implantadas! Segundo o relato dos seus amigos mais próximos, ele era plenamente aberto para dialogar com pessoas que possuíam ideologias diferentes em relação à surdez.

    De acordo com a confidência de uma amiga dele (mais íntima), ele chegava a dormir muitas vezes com uma mulher implantada, que era casada, em certos hotéis logicamente boêmios. Todavia, havia certa divergência entre eles especialmente sobre o dia do surdo. Ela dizia que era irrelevante o dia do surdo, visto que não tinha aquele orgulho (de ser surdo). Aquilo deixava o jovem surdo pensativo, por bom tempo, ou melhor, muitos sois posteriores, imaginam (eu mesmo falo!). A despeito disso, ele concluía que o dia do surdo era daqueles que foram brotados das lutas tristes e estressantes, aquelas coisas de revolução. Quem que achava o dia do surdo como partido daquele fanatismo surdo tinha seu direito de expressar o que pensava sim. Existia diversidade na surdez sim, no entanto, não era preciso desprestigiar o mesmo dia, uma vez que sempre que surgia uma nova cultura – no caso da cultura surda, por exemplo. Afinal, era  merecidamente lembrado o dia do surdo. Quando? Quando? Quando? Dia 26 de setembro!! Ou melhor, Dia do surdo na primavera! Este dia era direcionado aos que não escutavam, ou melhor, aos que APRECIAVAM a revolução surda. Esclarecendo melhor, este dia foi estabelecido quando a primeira escola de surdos foi fundada no mesmo período no Brasil, o INES – Instituto Nacional da Educação de Surdos.

    Voltava-se ao assunto do jovem surdo. Teve um momento em que ele e seu amigo (que era surdo oralizado) em um bar discutiam o dia do surdo, e eles apresentavam algumas desavenças a respeito da relevância de celebrar o mesmo. Aquilo para o jovem surdo era normal, pois cada um tinha seu ponto de vista. Ponto de vista. Não obstante isso o dia do surdo se encontrava lembrado constantemente por muita pessoas, por entenderem como o fruto das lutas surdas. Em outro instante o jovem surdo dormia com uma surda bilíngue. De repente, enquanto o sol nascia, eles estavam explanando sobre o dia do surdo e achavam interessante o fato de o dia do surdo ser celebrado quando o dia 26 de setembro chegava. Porque eles foram instruídos pela educação diferente para enxergarem por outros ângulos o mundo dos surdos (eu detesto este termo, mas…). Prestes a ser encerrada esta história, o jovem surdo participava ativamente da comunidade surda e, no entanto, ao passo que, inclusive da majoritária. Ele publicava muitos livros. Ele não sabia o que era impasse, obstáculo, barreira, aquelas coisas ignorantes que muitas pessoas viam.

    Ok, mas e o orgulho surdo? Ele entendia que era mais um orgulho. Ou seja, ele não ponderava a surdez como doença, sim, ao menos no seu entendimento, a diferença linguística e no mais nada.

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As letras de metal paravam de cutucar o papel repleto de manchas literárias.

    O jovem boêmio, cansado, decidira dar uma pausa ao seu trabalho. Foi taxado por uma mulher que estava no quarto dele, mesmo com o tom perceptivelmente diferente mas lindo (pelo menos) para ele: Meu amor, se está cansado, queres que eu faça uma boa massagem em você? Ela falava e sinalizava ao mesmo tempo. Aceito! Ele respondia sinalizando pra ela. A sua mulher era surda, ou melhor, surda bilíngue. Antes de iniciar a cena romântica, ele não deixava de sinalizar uma coisa importante à sua mulher: Hoje é dia 26 de setembro, certo? Feliz dia do surdo! Ela sorria e ainda falava: … ob… obrigado meu amor!