Luva ortopédica

Num dia

de chuva negra, porém não causava danos à cidade de satoleP, exceto as ruas centrais alagadas pelo erro engenheiro imperdoável, cujo incidente não era uma novidade para Satolepes. Havia um jovem dentro do táxi em pleno inverno. A aparência dele: descendente de portugueses originados da Ilha da Madeira, cabeludo e barbudo (sim, dois udos) e uns 34 anos. Seu trabalho era desprezado por muitos. Sua função era escrever contos e poesias. Estava indo ao consultório médico, mais especificamente, ao consultório traumatologista endereçado pelo médico dele. Localizado na rua Santa Cruz, cuja zona preferida de ladrões pela desolação. Eram umas três horas da tarde. Chegado ao destino, prestes a sair do táxi, o jovem deu o dinheiro pedido ao motorista depois de ter se dado ao trabalho de procurar umas moedas na sua boa carteira. E em seguida, abria seu guarda-chuva, ou seja, a melhor palavra do castelhano, seu paraguas para não molhar seu casaco sobretudo. Já dentro do consultório, ao reconhecer as partes internas, era casa. O saguão transformado numa sala de espera era sala de estar ou jantar pelos tons arquitetônicos internos. As paredes internas eram amarelas. Havia umas dez pessoas à espera de ser atendido. Quando ele foi chamado pela senha: Teu nome?, a recepcionista pediu. José Sartre Souza., o jovem respondeu. Ok. Encontrei teu nome aqui na agenda. Pode aguardar até o médico te chamar. Tenha boa tarde. A recepcionista passou a atender a outra pessoa. O jovem foi se sentar ao lado de uma mulher que tinha o braço direito enfaixado. Mas eles não conversavam porque o jovem optou por ficar em silêncio. A chuva continuava. Mais intensa. O médico apareceu e mencionou o nome do jovem. Foram 10 minutos de espera., o jovem calculou. O escritório do médico tinha o ar de classicismo em termos de decoração. O que eu devo fazer para ti?, o médico começou a rotina de perguntas. Na verdade, vim para solicitar um atestado para recomendar que eu preciso de luva ortopédica., José respondeu. Tem os exames?, o médico perguntou. Não, ou melhor, não fiz nenhum exame. Esse pedido é apenas uma precaução., o jovem procurou tomar cuidado em usar palavras para tentar convencer o médico a lhe dar um atestado. Finalmente convencido, o médico lhe deu um atestado. Obrigado!, o jovem fez questão de agradecer enquanto estava se desvencilhando da cadeira. Ei!, o médico lhe chamou no momento em que o jovem estava abrindo a porta. Por que por precaução? Como tu sabes que sou um poeta, acho relevante tomar precauções para que a minha mão esquerda não fique tendida. Com essa mão escrevo e desenho. Ou melhor, dependo dela para seguir a minha carreira tanto de professor quanto de escritor além de ser surdo. O médico avisou a recepcionista pelo telefone pedindo que cancelasse todas as consultas marcadas para hoje, Ele foi ao frigobar, um retrô vermelho. Dele, tirou duas cervejas. Começou o papo-cabeça. O médico também era poeta.

Um rascunho

De vagão para vagão. Meu casaco sobretudo preto espanta climas malvados. Adoro ventos bofeteando meu rosto. Meus tênis all star pretos, mesmo encardidos e gastos em razão do excesso do uso diário, são meus amigos. Minha altura é igual à do Van Damme que caiu graças às besteiras que ele havia cometido enquanto astro do cinema. Mais uma vez, de vagão para vagão. Sou um poeta nômade. Pequeno Príncipe adora explorar asteroides, e eu letras em pessoas e livros. Estou no trilho aparentemente gasto pela ação do tempo que liga o caminho para a última cidade do Sul brasileiro – e para separatistas egocêntricos, do Sul gaúcho. Há muitas inscrições repetidas nos vagões abandonados como forma de protesto contra o governo golpista: FORA TEMER. Pouso a minha mochila no chão metálico e tiro meu bloco de anotações e uma caneta preta conforme meus sentimentos me pedem. Não sei lhes desobedecer. Meu cabelo está uma bagunça. A culpa é das ventanias. Não vejo Mary Poppins no céu. Entra o crepúsculo. Estamos no horário do inverno, o que, particularmente, me satisfaz bastante. Começo a escrever minhas ideias. Meu sonho é plantar poesias em Marte, embora insólito de acordo com a Nasa. Reconheço que escrevi muitos estous, uma vez que esse emprego costuma deixar textos mais fluídos. Eu trouxe sete livros de poesia e contos. Nenhuma revista pornográfica, pois esse gênero me é inútil. Somente poesias e contos independentes sem estrelismo, já que eles falam a verdade, ou melhor, são super-honestos e estão preocupados com a nossa América Latina em termos de identidade. Escritores de verdade. Avessos ao Paulo Coelho. O trem, no qual estou em um dos vagões, passa pela Vila Quinta. Uma cidadezinha legal. Árvores tímidas. Casas anãs. Formigas humanas. Os três elementos metafóricos deixariam Xuxa, a rainha dos baixinhos, mordida. O mais bizarro é que lugares assim me deixam inspirado. Não há explicações para esse enigma. Tenho uma conta do Instragam, no entanto, publico somente fotografias de livros lidos. No Facebook publico entrelinhas esquisitas, porém mais interessantes que aquelas falas jurássicas do Temer. Estou fazendo um rascunho para que vocês possam ler.

LENDO GIBI EM TRÊS ÉPOCAS DIFERENTES

 

Aos 7 anos

Em 1987.

O garotinho adorava ler gibis. Preferencialmente do Incrível Hulk.

À espera do ônibus, o garoto de 7 anos tentava folhear gibis mesmo que impedido pela mulher da banca. Todavia, ele insistia em ler mesmo sem comprar porque não tinha nenhum centavo pra comprar um gibi. A mulher que perdeu a paciência o atacou, mas os vinis que ele empurrou ao correr caíram.

O garotinho já estava com a sua mãe e a mulher foi ao redor deles:

Moça, seu filho quebrou todos os vinis quando ele escapou acabou empurrando.

Não quero mais vê-lo.

Esse garotinho não recebeu castigo.

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Aos 11 anos

O ano em que Collor caiu por conta da corrupção.

No verão, a barraca instalada no acampamento da praia do Cassino, o garotinho de 11 anos ficava na revistaria de tarde até a noite lendo quase todos os gibis e a mãe dele teve de ir até lá buscá-lo. A revistaria foi a zona de conforto pra ele porque não gostava de praia.

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Aos 24 anos

Apenas era um cara que trabalhava pra pagar as contas além de estudar a ponto de se tornar um profissional qualificado.

Ele fazia questão de ler gibis escondido da sua namoradinha porque ela não gostava de ler.

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Pausa.

Eu adoro ler gibis – Pensou Jovem Boêmio, que estava prestes a sair da sua máquina de escrever pra pegar uma cerveja gelada, na qual ele havia escrito um conto sobre a importância de ler gibis.

PRESENCIEI AQUELE EPISÓDIO ILUSÓRIO

Por Diogo Madeira

Num dia (bem quente e empoeirado) em que eu estava dentro do ônibus, bem coberto de excesso de areia por causa das estradas próximas da praia que ainda não foram asfaltadas (até hoje) voltando da escola (eu chamava de esquisita por não me entender com aqueles colegas que sequer liam gibis) à minha casa. De repente uns caras (dava pra notar que, pelos adesivos partidários nas roupas deles, eram colaboradores da campanha do Collor) apareciam no meu ônibus distribuindo materiais escolares porém com a marca do candidato presidenciável às crianças e inclusive a mim. Mas aquelas crianças estavam iludidas. De verdade. Eu não. Ou seja, pelo material escolar nas minhas mãos eu tive um péssimo pressentimento acerca do império do Collor, mesmo que estivéssemos na primeira eleição direta após o fim da ditatura militar, e ainda convivia com pessoas de esquerda desde que eu saí do berço. Ainda teve um dia chuvoso em que uns caras aparentemente comunistas pelas roupas e barbas, coisas típicas de comunista conforme eu via muitos filmes sobre isso, na minha casa se reuniam com a minha mãe. E com o mate indispensável também. Eu apenas os estava observando e, ao mesmo tempo, lendo meus gibis da turma da Mônica. Mas naquele momento a minha leitura labial ainda estava em fase de desenvolvimento, ou seja, ela tinha dois meses de vida em termos de linguagem, aí eu não podia ler aqueles lábios revolucionários. Se eles tivessem escrito do que estavam falando, eu certamente entenderia (será?) perfeitamente. Eu tinha oito anos e tive a oportunidade de apreciar o período da primeira eleição direta tão agitada, justamente por nascer no fim da ditatura militar. Eu estava ao lado da minha mãe que trabalhava como mesária contemplando muitos eleitores chegando e indo embora. Ela me instruía a não mencionar o nome do nosso candidato presidenciável (Lula) aos eleitores, o que era proibido em período de eleição. Eu via pela primeira vez o debate do segundo turno entre Collor e Lula na TV, embora eu não entendia nada, é óbvio. Porque naquela época ainda não tinha a tal acessibilidade para quem não escutava. Contudo, a despeito disso, dava pra perceber que eles estavam bem tensos como se não estivessem acostumados com esse tipo de debate, ainda mais em público, ou melhor, ao vivo, cuja ocasião histórica fora transmitida pela Rede Globo ao Brasil inteiro. Dias depois, a minha mãe me dizia que Collor venceu. Porque o povo estava iludido pelos materiais escolares distribuídos pelos colaboradores do Collor, eu pensava. Atualmente eu tenho 34 anos e vejo Aécio como Collor por distribuir beijos em mãos, como uma forma de ilusão. […] […] […] Pausa. Jovem Boêmio para de escrever seu novo romance no qual ele usa as conversas com seu amigo que é bastante politizado. Seu amigo autorizou que as conversas sobre a vida dele no meio da política fossem inseridas no novo romance do Jovem Boêmio. O intuito do Jovem Boêmio de lançar seu novo romance é acabar com a ilusão do tucanismo sobre pessoas que têm mente frágil. Seu amigo, mesmo sendo surdo, no entanto, Jovem Boêmio não o vê assim, sim como qualquer pessoa em todos os sentidos.

Ela foi minha professora

    Jovem Boêmio tivera uma ideia praticamente humana e foi correndo até o seu apartamento a ponto de se enfiar na cadeira diante da sua velha máquina de escrever, que fora comprada no final do século XX- foi jogada no lixo em meados de 2002, mas foi recuperada em 2006 após um longo hiato sem escrever – . Porque tal mulher surgia na sua mente, cujo elemento fora sua professora de história quando ele cursava ensino médio. Preparado para contar mais outra história, começava a costurar seu tecido:

– Professora?

– Sim?

Terminei de fazer a prova.

– Pode me entregar.

– Ok, deixa eu guardar minhas coisas na minha mochila

– Ok. – A professora se mostrava belamente paciente com ele

– Pronto. A minha prova está aqui, professora. – Jovem Boêmio a estendia para ela

– Obrigada!

– De nada – Jovem Boêmio fazia questão de brincar de bonzinho com ela

    Na semana seguinte, a professora anunciava que quem tirou a nota mais alta foi Jovem Boêmio, que causava certo incômodo aos seus colegas. E em seguida ela recomendava que seus colegas devessem fazer outra prova para obter nota alta. Entretanto, seus colegas foram em cima dela, uma forma de protesto. Porque o método dela era muito cruel para eles – eles mesmos achavam que sim. Jovem boêmio saiu triunfado por não necessitar fazer outra prova.

  Aquele momento foi marcante para mim, Jovem Boêmio dizia a si mesmo enquanto escrevia sua história visualizando suas lembranças deleitáveis.

  Catorze anos depois, eles voltavam a se ver, ou melhor, se encontrar a convite da sua professora, que era tão culta quanto ele. Antes eles trocavam ideias pelo facebook, cuja rede social era inevitavelmente viciante para muitos. Depois do cinema, foram a um hotel para inaugurar a relação carnal deles. Mas isso foi em 2010, ou melhor, quatro anos atrás. E foi um clima romanticamente amigo. Ela foi minha professora e atualmente é minha amiga. Devo dizer que é um imenso orgulho tê-la como minha amiga e companheira de cinema e literatura. Ela sempre me dá muitas sugestões de livro ou filme. E me admira muito como escritor (de gaveta, ok). Eu faço a mesma coisa, ele dizia a si mesmo enquanto ela refrescava a memória do Jovem Boêmio.

   Ao terminar a história (embora o final fosse meio incompreensível), Jovem Boêmio parava para pensar: por que não ligo para ela para combinarmos um encontro como aquele?

Diadosurdo? Surdodioado? Dosurdodia? Dia do Surdo?

Por Diogo Madeira

 

  O jovem boêmio acabara de ter uma ideia, pra escrever sobre um surdo perambulando pelas ruas, por causa daquele dia do surdo (não surdo-mudo!). Ele foi correndo até o seu apartamento. Antes de sentar à sua máquina de escrever ele sacava três latas de cerveja da sua geladeira, que lembra uma dos anos 50 pelo design. O papel que ele havia começava a ser tocado pelas letras de metal, acarretando em barulhinhos proletariados:

  Um surdo, de 28 anos, aparentemente moreno, para vocês saberem, era super comunicativo. Ele não parava de render boas conversas em bares boêmios, o que era considerado o querido do bar pelas pessoas que frequentavam os mesmos bares que ele. Não era unicamente, que, ele usava a técnica estratégica: leitura labial. Mas também se expressava (muito bem, fala sério!!) tanto na escrita quanto na língua de sinais (eu quase ia escrever linguagem de sinais, o que era incorreto para os que atuam na área de surdez ou linguística). Mas ele se sentia orgulhoso de ser surdo? Ele não se manifestava a respeito. Mas dava pra notar que ele fazia questão de celebrar o dia do surdo sim. Mas que este dia não era daqueles idiotas, pois foi baseado em movimentos revolucionários ou sócio-culturais pelos surdos militantes, assim como o dia da mulher, para vocês entenderem melhor. Ele nasceu surdo conforme os médicos diagnosticavam e estudava em melhores escolas graças à educação precisa dada pelos seus pais. E por ser notado como surdo bilíngue (em Língua Portuguesa e Libras) sempre figurava em primeiros lugares em concursos literários – tanto em língua escrita quanto em língua de sinais, pois ele era craque em redação (em língua portuguesa!) segundo seus amigos mais próximos. Ele baixava a bola de que a língua de sinais prejudicaria a língua pátria porque entendia que era necessário sempre deixar a sua mente afiada, ou seja,  via o bilinguismo como essência linguística (embora não desnecessariamente obrigatório) para surdos. Sem falar que ele conquistava muitas mulheres surdas – sinalizadas, oralizadas, bilíngues e até implantadas! Segundo o relato dos seus amigos mais próximos, ele era plenamente aberto para dialogar com pessoas que possuíam ideologias diferentes em relação à surdez. De acordo com a confidência de uma amiga dele (mais íntima), ele chegava a dormir muitas vezes com uma mulher implantada, que era casada, em certos hotéis logicamente boêmios. Todavia, havia certa divergência entre eles especialmente sobre o dia do surdo. Ela dizia que era irrelevante o dia do surdo, visto que não tinha aquele orgulho (de ser surdo). Aquilo deixava o jovem surdo pensativo, por bom tempo, ou melhor, muitos sois posteriores, imaginam (eu mesmo falo!). A despeito disso, ele concluía que o dia do surdo era daqueles que foram brotados das lutas tristes e estressantes, aquelas coisas de revolução. Quem que achava o dia do surdo como partido daquele fanatismo surdo tinha seu direito de expressar o que pensava sim. Existia diversidade na surdez sim, no entanto, não era preciso desprestigiar o mesmo dia, uma vez que sempre que surgia uma nova cultura – no caso da cultura surda, por exemplo. Afinal, era  merecidamente lembrado o dia do surdo. Quando? Quando? Quando? Dia 26 de setembro!! Ou melhor, Dia do surdo na primavera! Este dia era direcionado aos que não escutavam, ou melhor, aos que APRECIAVAM a revolução surda. Esclarecendo melhor, este dia foi estabelecido quando a primeira escola de surdos foi fundada no mesmo período no Brasil, o INES – Instituto Nacional da Educação de Surdos.  Voltava-se ao assunto do jovem surdo. Teve um momento em que ele e seu amigo (que era surdo oralizado) em um bar discutiam o dia do surdo, e eles apresentavam algumas desavenças a respeito da relevância de celebrar o mesmo. Aquilo para o jovem surdo era normal, pois cada um tinha seu ponto de vista. Ponto de vista. Não obstante isso o dia do surdo se encontrava lembrado constantemente por muita pessoas, por entenderem como o fruto das lutas surdas. Em outro instante o jovem surdo dormia com uma surda bilíngue. De repente, enquanto o sol nascia, eles estavam explanando sobre o dia do surdo e achavam interessante o fato de o dia do surdo ser celebrado quando o dia 26 de setembro chegava. Porque eles foram instruídos pela educação diferente para enxergarem por outros ângulos o mundo dos surdos (eu detesto este termo, mas…). Prestes a ser encerrada esta história, o jovem surdo participava ativamente da comunidade surda e, no entanto, ao passo que, inclusive da majoritária. Ele publicava muitos livros. Ele não sabia o que era impasse, obstáculo, barreira, aquelas coisas ignorantes que muitas pessoas viam. Ok, mas e o orgulho surdo? Ele entendia que era mais um orgulho. Ou seja, ele não ponderava a surdez como doença, sim, ao menos no seu entendimento, a diferença linguística e no mais nada.

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As letras de metal paravam de cutucar o papel repleto de manchas literárias.

O jovem boêmio, cansado, decidira dar uma pausa ao seu trabalho. Foi taxado por uma mulher que estava no quarto dele, mesmo com o tom perceptivelmente diferente mas lindo (pelo menos) para ele: Meu amor, se está cansado, queres que eu faça uma boa massagem em você? Ela falava e sinalizava ao mesmo tempo. Aceito! Ele respondia sinalizando pra ela. A sua mulher era surda, ou melhor, surda bilíngue. Antes de iniciar a cena romântica, ele não deixava de sinalizar uma coisa importante à sua mulher: Hoje é dia 26 de setembro, certo? Feliz dia do surdo! Ela sorria e ainda falava: … ob… obrigado meu amor!

A inspiração momentânea

  Enquanto se dando conta de que estava inspirado graças à presença de sua namorada, o jovem boêmio resolveu parar de caminhar para dar um pulo no bar aparentemente boêmio pela decoração artística para poder escrever suas ideias no seu bloco de notas que sempre fora levado com ele em viagens, que era o ritual dele. A ação do escrevinhador começava:

  Fui à laranja. Mas não estou falando da fruta crua. Refiro-me ao suco de laranja que pedi. Ao meu ver o suco de laranja era idêntico ao corpo de Bettie Page. Atrevi-me a tomar esse suco de laranja e saí doente (no sentido de feliz). Tomei o táxi (naquele momento eu estava sem grana) e felizmente fui chutado do carro pelo taxista, o que me era uma ocasião menos embaraçosa. Todavia, o que era mais complicado era a minha mulher que estava no apartamento dela por mim para podermos ver o filme juntos, que comprei pela internet. Ela não tinha mais aquela paciência porque na maioria das vezes eu não cumpri meus deveres culturais, e, inclusive, ela chegou a almejar romper o relacionamento comigo. Será que desta vez vai acontecer de verdade?, pensei eu. Conquanto a minha relação com ela fosse tão saudável baseada na nossa química incansável, nem isso era suficiente para contestar a decisão da mulher de concretizar essa ideia , ou seja, não havia nada de anormal nesse assalariamento, o que garantia a longevidade amorosa a nós.

   Já terminou? – A namorada dele interrompeu o trabalho literário do jovem boêmio. Não… ainda não… e dê-me mais dez minutos, por favor – Respondeu suplicamente o jovem. Entretanto, a inspiração decidiu abandonar o jovem boêmio, daí ele não tinha mais o que deve escrever. Perdição total. Em vez de tentar escrever, o jovem boêmio, visivelmente frustrado, guardou o seu bloco de notas na mochila e dizia à sua namorada: Vamos voltar à nossa caminhada que eu havia interrompido por conta daquela inspiração? A namorada dele, mesmo sequer terminava seu suco de frutas vermelhas ainda, não pensou duas vezes e atendeu à sugestão repentina dele. Já que o intuito dele, obviamente, era trazer a inspiração de volta.