Vi meus livros dançando no quintal

Em um pub chamado New York, localizado na Zona Central de satoleP, dentre muitas pessoas, havia um grupo de quatro rapazes numa mesa cheia de cervejinhas e polentas, comentando de músicas e literaturas.

Os três estavam mal desajustados, e o outro, bem vestido – de terno.

Os amigos falavam, dirigindo-se ao jovem bem-sucedido e formado em administração, de Vitor Ramil.

Entretanto Ramil não interessava a ele.

Eles insistiam em lhe citar um texto, de uma de letras do compositor pelotense, chamado “Livros no quintal”.

O jovem achava idiota esse texto e mandava um recado a eles:

– Não estou a fim de ler ou ouvir essas coisas inúteis.

O silêncio imperava entre eles.

Muitas cervejinhas.

Os rapazes, mesmo em pleno silêncio pelo menos entre eles, faziam seus líquidos alcóolicos amarelos dançarem.

Até que nasceu o sol.

O Pub estava se fechando.

A consumação foi paga, sendo dividida por quatro rapazes.

Diante dessa ocasião, eles deixaram de falar com ele e não lhe convidaram.

O jovem conservador, que se chamava João, possuía uma bela casa. E um belo quintal.

Em seus bares preferidos, muitas mulheres viviam partindo em cima dele, ao menos da maneira eventual a ponto de conseguirem bebida de graça. Nenhuma dessas interessava de verdade a ele, por serem boêmias e financeiramente escassas. Ele ia muito ao cinema e à biblioteca pública de sua cidade, cujas opções eram seus passatempos favoritos (talvez os únicos).

Cinema Clássico e Literatura burguesa eram os gêneros prediletos dele.

João se declarava em público contra as literaturas marginais, tipo beat.

O cara de cabelos ondulados loiros vivia criticando os escritores que defendiam a democracia.

Os ratos da biblioteca pública local se sentiam incomodados com a presença dele por conta da arrogância. As críticas imbecis dele sobre os escritores boêmios foram a gota d’água: eles fizeram uma petição pedindo o afastamento do João da biblioteca pública, o que surtiu efeito. Ele foi expulso após a decisão do colegiado administrativo e literário diante da pressão das pessoas aspirantes a escritor.

A partir disso, ele passou a ficar cada vez mais enfiado na sua casa se afundando no alcoolismo, depois que pediu a exoneração do seu trabalho. A escuridão o abraçava, e o silêncio estava com ciúmes dela. Aí, eles o abraçavam. Ele pensava na sua família o tempo todo, especificamente, nos seus pais (mortos num acidente de carro). Ele era o filho único. Muitos whatsapps no smartphone dele, porém, não foram lidos.

Já de noite, caiu uma chuva danada.

A cidade inteira foi tomado por um banho casual.

João enrolado de cobertor se levantava da sua cama, foi até a janela e apreciava pingos de chuva contínuos batendo nos seus ouvidos.

De repente, houve uma ocasião estranha, ao menos, a ele.

Uns pingos de chuva se juntaram e escreveram coletivamente no vidro da janela, do qual ele estava bem próximo: Vitor Ramil.

Vitor Ramil. Ele falou em voz baixa e saiu da janela achando que estaria ficando louco. A possível demência dele foi interrompida pelas batidas da porta.

Ele fez questão de abrir a porta.

Era uma mulher ruiva (que ele nunca vira na vida dele). Ela estava de regata branca e saia preta e tinha uma tatuagem no ombro direito dela que chamava a atenção do jovem: um coelho segurando um relógio. Simpático e altamente infantil pelo traço. Talvez de uns trinta e dois anos.

– Oi, João! Posso entrar? – indagou a mulher misteriosa

– Claro… – respondeu confuso, tentando mostrar ser gentil.

Ela se sentou no sofá e logo foi questionada:

– Quem é você? – perguntou João.

– Sou Alice e amante do Coelho Branco. – respondeu sorrindo a mulher misteriosa

­– Coelho branco? – quis saber João.

– Ah, do Carroll. Você já leu algo desse sobrenome?

– Não, aliás, eu particularmente acho horrível a literatura dele. – declarou a sua ignorância sobre a literatura clássica.

– Sério? Para mim tu és um E.T. – começava a provocar ele a mulher misteriosa – Pois 99% das pessoas que eu conheço são fãs do Carroll.

– Peraí, a gente se conheceu? Mas de onde? – perguntou assustado o jovem meio falido em termos sociais.

– Sou uma dona ninguém. Aquele lance de ser amante do coelho branco era brincadeira, pois quis fazer você cair na minha armadilha. Tive o prazer de pesquisar seu nome no São Google e fiquei interessada por você – respondeu honestamente a mulher misteriosa

– Interessada por mim? Tu és uma mulher de baixo relevo. Não se encaixa no meu perfil. Agora, saia da minha casa! – João ignorou o interesse dela.

– Ok, vou conversar com o Carroll e ele vai esmagar seu cérebro. Vai ver. Estou falando sério. – ela estava saindo enquanto fazia seus últimos diálogos enigmáticos com João

Depois que ela saiu, ele se sentiu aliviado e se lembrou que havia conhecido ela numa festa e fizeram uma rapidinha. Mas depois disso ela não parava de ligar insistindo em marcar encontros com ele, e ele recusava numerosos convites dela.

O contato entre eles se esfriou por conta do desprezo do João.

Depois de se lavar no banheiro ele foi capotar e abraçou o sono profundo.

Ele foi acordado pelo barulho esquisito, foi até a janela para ver o que estava acontecendo e ficou indignado ao ver: uns livros dançavam no seu quintal.

Ele se indagava se estava em sonho ou não. Mas realmente não estava em sonho mesmo.

Ele vestiu seu roupão e foi ao seu quintal. Os livros se viravam para ele e o saudavam: BOM DIA, PAI! DORMIU BEM? CURTIMOS MUITO O SEU QUINTAL.

Ele se assustou com o fato de ser chamado de pai e perguntou: quem são vocês?

– SOMOS SEUS FILHOS. SOMOS DESCENDENTES DA ÁRVORE DO VITOR RAMIL. CARROLL NOS TROUXE ATÉ AQUI, PARA FICARMOS CONTIGO. ELE NOS DISSE QUE VOCÊ É NOSSO PAI.

Ele se tocou de que o que Alice tinha lhe dito era sério. Ele sentia que havia levado uma surra no estômago.

– Podem me dizer seus nomes? – perguntou João aos cinco livros.

JACK KEROUAC. ROBERTO BOLANOS. PABLO NERUDA. FLORBELA ESPANCA. ALBERTO CAMUS.

– Onde está Alice? Digamos, vocês conhecem Alice? – questionou apavorado João.

– ELA É NOSSA MÃE. ELA ESTÁ NA SUA CAMA.

Esse nome deixou ele arrepiado. Ele foi ao seu quarto e encontrou Alice dormindo na sua cama. Tão real mesmo, pensava ele.

Ele se aproximou da cama, e Alice acordou.

Ele quis saber o que estava acontecendo.

Alice respondeu simplesmente:

– Graças à chuva literária, né? Carroll quer ver você feliz e deixar sua arrogância e seus preconceitos de lado.

Essa resposta mexeu com a cabeça do João.

Ele dizia a ela admitindo que tinha cometido muitas coisas estúpidas.

– Fora isso, confesso que gosto muito de você. Só que não te procurei porque eu fui um tanto imbecil. – Reconheceu João.

Em muitos anos, pela primeira vez, ele exibiu seu choro sincero em frente da Alice.

– Solte lágrimas! – Sugeriu Alice, prestes a abraçar ele.

Eles se beijaram. E mergulharam de vez.

Os livros no quintal soltaram berros de felicidade.

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