Um rascunho

De vagão para vagão. Meu casaco sobretudo preto espanta climas malvados. Adoro ventos bofeteando meu rosto. Meus tênis all star pretos, mesmo encardidos e gastos em razão do excesso do uso diário, são meus amigos. Minha altura é igual à do Van Damme que caiu graças às besteiras que ele havia cometido enquanto astro do cinema. Mais uma vez, de vagão para vagão. Sou um poeta nômade. Pequeno Príncipe adora explorar asteroides, e eu letras em pessoas e livros. Estou no trilho aparentemente gasto pela ação do tempo que liga o caminho para a última cidade do Sul brasileiro – e para separatistas egocêntricos, do Sul gaúcho. Há muitas inscrições repetidas nos vagões abandonados como forma de protesto contra o governo golpista: FORA TEMER. Pouso a minha mochila no chão metálico e tiro meu bloco de anotações e uma caneta preta conforme meus sentimentos me pedem. Não sei lhes desobedecer. Meu cabelo está uma bagunça. A culpa é das ventanias. Não vejo Mary Poppins no céu. Entra o crepúsculo. Estamos no horário do inverno, o que, particularmente, me satisfaz bastante. Começo a escrever minhas ideias. Meu sonho é plantar poesias em Marte, embora insólito de acordo com a Nasa. Reconheço que escrevi muitos estous, uma vez que esse emprego costuma deixar textos mais fluídos. Eu trouxe sete livros de poesia e contos. Nenhuma revista pornográfica, pois esse gênero me é inútil. Somente poesias e contos independentes sem estrelismo, já que eles falam a verdade, ou melhor, são super-honestos e estão preocupados com a nossa América Latina em termos de identidade. Escritores de verdade. Avessos ao Paulo Coelho. O trem, no qual estou em um dos vagões, passa pela Vila Quinta. Uma cidadezinha legal. Árvores tímidas. Casas anãs. Formigas humanas. Os três elementos metafóricos deixariam Xuxa, a rainha dos baixinhos, mordida. O mais bizarro é que lugares assim me deixam inspirado. Não há explicações para esse enigma. Tenho uma conta do Instragam, no entanto, publico somente fotografias de livros lidos. No Facebook publico entrelinhas esquisitas, porém mais interessantes que aquelas falas jurássicas do Temer. Estou fazendo um rascunho para que vocês possam ler.

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10 comentários sobre “Um rascunho

  1. Tipo texto de mente inquieta e ao mesmo tempo entediada com as normativas da rotina diária. Incrível sua poética discursiva que emana dessa narrativa em forma de crônica de um Surdo Bilingue Bicultural e, por que não, biônico?! Ehehehe!! Amei demais ver seu estilo Ensurdecido-Ouvintizado, hehehe… Segue firme, camarada!! Em breve, verei você lançando livro de contos e crônicas Surdo-Ouvintizadas na Bienal e na FLIP, hehehe!! Abração!! =D PS – cuidado com os deslizes ortográficos das últimas linhas… Não comprometeram em nada o texto, mas, bem melhor seria não encontrá-los por ali, hehehe… Ex: “Escritores de verdade” e não “Escritorxs de verdade”. Ehehehe!! =D

    • Hehehehe…
      Para você é bizarro ler textos assim por persona surda? 😛
      Sim, sei que há pequenos deslizes ortográficos nas últimas linhas.
      Preocupado em fazer o meu textinho parecer legal, considerei sua constatação e fiz questão de remendá-los.
      Coloquei o x no meio do termo escritores a ponto de valorizar a igualdade dos gêneros, o que, convenhamos, ainda é meio estranho para muitos por questões de costume e mentalidade.

      • Não, não… Bizarro não!! Pelo contrário!!! Achei maravilhoso o texto e marcante, entende?! Você imprime no texto Sua identidade e quem te conhece pode te ler ali nas entrelinhas das palavras. Isso é muito legal. O lance da correção foi só um detalhe, tipo toque final. Sério mesmo!!! Pode render livro num futuro próximo. Deixa só as editoras do novo circuito literário te descobrirem, ehehehehe!!! Parabéns, meu caro!!! Você escreve super bem!!! 🙂

  2. Adoro a identidade ironicamente escrachada das tuas escritas, dá para imaginar o vagão, o casaco, o trem, enfim é como um BBB escrito das tuas sensações nesse mundo, esse sim, bizarro!!!

  3. Parabéns!!! Esse texto realmente me surpreendeu, pois desperta sentimentos e nos faz viajar contigo nesse trem. Acredito que em breve, não serão mais contos, mas uma linda estória para ser editada.

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