Conquanto

Conquanto… Conquanto? Interrompe-se o jovem escritor ao escrever na máquina de escrever. Embora? Não, porque não posso repetir essa preposição. Sim, conquanto. Ele coloca depois de pensar por mais de dez minutos. A organização das palavras é braba, admite o jovem enquanto toma a sua bohemia. Isso é igual à cirurgia plástica. Ele afirma arquitetonicamente, ao imaginar uma mulher, a introdução é o rosto feminino, o desenvolvimento é o corpo e a conclusão é a vagina. A revisão, sobretudo, é o amor. Porque essa base permite mais canetas, quer dizer, cama. Conquanto a mulher ceda as pernas ao parceiro se estiver plenamente apaixonada, o autor soube como lidar com o desligamento sentimental porque ele tem experiência em mulheres que foram comidas, no entanto, desde que tenha diálogo constante (e dócil) para acelerar a excitação. Enfim, parágrafo fechado, o jovem escritor comemora por conseguir terminar o primeiro parágrafo depois de muitos dias tentando concluir e muitas folhas amassadas no lixo. Ele compara o primeiro parágrafo ao parir o bebê, o que é mais tenso. Acho que estou apaixonado por conquanto, ele diz a si próprio ao se preparar para ir para a cama que o cansaço o manda. Conquanto, casa comigo? O jovem escritor imagina alegremente contemplando a sua bohemia vazia. Quando eu tiver um bichinho de estimação, vou batizá-lo de conquanto, pensa ele enquanto se encaminha para a cama.

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Atitude birrenta

Ninguém curte atitude birrenta. Nem alguém quer compartilhar isso. Nenhuma pessoa é capaz de lidar com essa atitude. Porque é uma coisa que decerto incomoda as pessoas tanto em lugares informais quanto em civis. No seu apartamento, o jovem boêmio enfiado na sua máquina de escrever tentando terminar o seu livro antes de estourar o prazo dado pelo seu editor – que foi prorrogado muitas vezes. Ele tem coleção de chapéus. Para ele, cada chapéu comprado em cada lugar visitado significa registro. Ele se pergunta enquanto tenta escrever: por que ninguém aguenta a atitude birrenta? Talvez eu não suporte porque não curto pessoas explosivas. Sem trema no aguentar é muito estranho para mim, diz a si próprio o jovem. Ele olha da janela a bela vista da praia de Copacabana e reflete: quando se vai mudar a atitude das pessoas? Ele volta para a sua máquina de escrever e enfia suas letras: esse mundo injusto motiva o indivíduo a vencer o seu medo encarando as situações torturáveis como a miséra. Sabe-se que ao encarar uma dessas é necessário recorrer aos livros do Dostoiévski, recomendavelmente ao intitulado O Duplo, que conta a história do servidor pressionado pelos superiores. Uma vez que os livros do russo inestimável, ao meu ver, servem como dicas para a pessoa arquitetar a sua forma de se defender diante dos inimigos (ou melhor, pessoas opostas) sem tomar uma atitude como essa (atitude birrenta). Ao organizar a agenda social, o sujeito que estiver perdido socialmente deve tomar uma decisão afoita para dar a volta por cima para elevar a sua autoestima, finaliza a linha com o ponto o jovem. Depois de uma pausa, volta a abastecer o que passa pela sua cabeça: Além da birrenta, o que se incomoda cotidianamente é a atitude quietista que toma a maioria das pessoas. Diz-se sê-la incorrigível em razão do histórico e talvez do costume. Inspirado, o escritor enfia mais letras: Qualquer atitude tem que ser tolerante para as pessoas, ou seja, perante as pessoas queridas; o modo de tratar bem os sujeitos obrigatoriamente é admissível. Uma vez que tomar uma atitude – maleável – arquiteta o comportamento tanto social por completo quanto linguístico por inteiro, concluía o escritor. E continua: certamente que a revelia comportamental usufrui dos seus pensamentos revolucionários para fazer reforma em sujeito. Cada atitude que o sujeito toma é instantânea principalmente de acordo com o clima. Que droga – o escritor se irrita ao deixar a sua cerveja derramar na sua máquina de escrever. A folha que havia sido escrita está molhada e o jovem a tira para tentar mirrá-la com a secadora abandonada por uma mulher que foi ficante dele. Em poucos minutos, está seca, no entanto, as letras estão borradas devido à tinta. Tenho que re-escrever, esta noite será longa e que a cerveja vai me fazer companhia, pensa o escritor.

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Insistência imbecil

Aquele cara está esperando a nova chance para poder voltar à esposa, comentava o funcionário ao seu colega sobre o cara que estava trabalhando do outro lado.

Espero que dê tudo certo para ele, claro, e a sua esposa, disse o colega.

Ele não a come faz muito tempo, ou seja, deixa eu calcular, há oito anos, esclareceu o funcionário.

Oito anos? Por que ele ainda insiste em voltar pra ela? Assustava-se o colega.

Não sei, talvez ele não tenha cérebro pra rever seus conceitos e o pior é que ele rejeitou o pedido de divórcio da esposa. Ela está sofrendo sendo perseguida por ele, ou seja, ela não tem como se relacionar com outro por causa do medo da perda dos seus bens caso o marido descubra, respondeu o funcionário.

Mas a esposa dele também está errada porque não para de pedir para ele  busca-la de carro na saída do trabalho. Aí ele se ilude pra caramba, acreditando em voltar pra ela. Eu aposto que eles vão se divorciar oficialmente quando a vida sexual e a beleza humana chegarem ao fim, comentou o funcionário.

Acho que eles são os maiores idiotas do mundo em relação ao casamento, sugeriu o colega.

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Me emocionei e você?

 Por Diogo Madeira

Eu não aguento ver a invisibilidade do escritor surdo Jorge L. Guimarães no meio do mundo dos surdos. Isso me dói, francamente. Tenha plena certeza que muitos surdos não sabem da origem dele, visto que a época dos anos 60 em que ele vivia, ainda não tinha internet. Aí a época dele era presa à ditadura. Talvez lá o compartilhamento de informações era restrito. E a editora (me é desconhecida) que publicou o livro não era de grande expressão. Por isso estou reforçando a importância do conteúdo dele (o livro “até onde o surdo vai”) que não foi divulgado o bastante. Vou repetir o que eu havia dito em outro texto: ele era o melhor de milhões de surdos que tentaram escrever literariamente porque Guimarães sabia se expressar na escrita, e porém, ao mesmo tempo, tinha se defendido das desavenças das pessoas a respeito do seu talento.

O que tem de interessante ele é a postura, sabendo lidar com todos os sentimentos em relação ao que caber a ele. Tenho me perguntado como ele conseguia mandar suas crônicas para o jornal O Globo. Até onde eu sei, este jornal é uma das principais referências de jornalismo na atualidade. Esses dias eu comentei disso com meus amigos. Eles também carregam a mesma dúvida que eu. Uma vez que a escassez de informações me deixa aflito, e estou tendo dificuldades para desvendar a origem dele. No Rio, eu indaguei aos meus amigos do Jorge, no entanto, nenhum deles questionados pôde ajudar, segundo ele, o Jorge é um elemento invisível. Ele tem razão. Para mim, ele é uma lagarta depois borboleta inalcançável. Ainda mais que eu me sinta na obrigação de colocar o escritor surdo na mídia a ponto de as pessoas saberem da sua caneta literária no meio do mundo dos surdos (não tenho a vontade de rotular cada surdo, tipo sinalizado, oralizado ou bilíngue porque não tenho querido perder meu tempo com isso).

…. p … par pa p

………….

O jovem boêmio parou de escrever na sua máquina de escrever.  Ele detestava do laptop, pois acreditava que a máquina de escrever o deixasse mais inspirado.

Amor? – chamou a sua esposa. Estou aqui, no meu escritório. – Respondeu o boêmio, eles moravam juntos, no entanto, de forma democrática, ou seja, não civilmente. Eles se conheceram numa festa. E eram apreciadores do amor livre. Ela trabalhava como roteirista de quadrinhos e o jovem tentava seguir a carreira de escritor. Eles eram surdos, porém, valorizavam a vida ao invés de ficarem presos numa única cultura (cultura surda).  Como está indo o seu livro? – Indagou a mulher. Devagar. Estou sem inspiração. – Replicou o jovem. Que tal nós cairmos fora pra tomar umas cevas até a inspiração te voltar? – Sugeriu a mulher. Por que não? Sorriu o jovem.

Amor, antes de sairmos, quero te mostrar uma coisa. O jovem pegou o livro extremamente amarelado que estava prestes a se despedaçar em razão da ação do tempo e estendeu-o à mulher: leia o prefácio do Jorge Bloch, que era grande camarada de Jorge. Eu tentei localizá-lo por meio do google, mas vi que numa notícia ele havia falecido faz tempão. Perdi essa oportunidade de obter as informações reais sobre o escritor surdo. Localizar a família dele é complicado, visto que lá no google não tem muita coisa. Vá para as últimas linhas, sugeriu o jovem.

Instruída, ao olhar para o jovem que estava aguardando a leitura dela, a mulher lia:

É uma simpatia ambulante, uma inteligência lúdica, um espírito de escólio. Quis que eu escrevesse algumas linhas para prefaciar seu livro, em que reune algumas de suas belas crônicas, de suas ideias limpídas, de seu ideal luminoso.

 

Basta que lhes conte um fato para que fiquem sabendo quem é.

 

Quando me procurou com seus artigos admiráveis eu observei:

 

- Jorge, se eu encontrar alguma coisa que eu considere errada, que eu considere imprópria, em seu livro, posso corrigir?

 

Jorge sorriu e com esse escrúpulo fabuloso, próprio de almas puras e privilegiadas, observou protestando:

- Mas se o senhor for emendar o meu livro… o livro não será mais meu!

 

Não toquei em nenhuma palavra, em nenhuma linha.

 

Não fiz nenhuma observação.

 

Só quero deixar aqui consignada a minha admiração por Jorge. Eu não diria que Jorge é um grande homem, apesar de sua surdez. Não. Talvez eu devesse dizer que ele é um homem admirável justamente por ser surdo. Por conservar dentro de sua alma generosa essa beleza, essa pureza, essa grandeza.

 

Todos os que lerem suas crônicas compreenderão o que quero dizer. Vocês verão que ele, feliz como é, jamais se preocupa com seu próprio problema. Reparem como vive o problema dos outros. Esse livro é um livro de bondade, de ternura, de luz, de compreensão.

 

Jorge, eu tenho um orgulho imenso de me considerar seu amigo. Como é que você sem ouvir consegue ouvir muita coisa?

A mulher, ao terminar de ler, ficou sem palavras. Você se emocionou? – Perguntou o jovem. Sim. – Respondeu aos prantos a mulher. Eu leio isso muitas vezes, e, desde então estou com essas palavras comoventes sobre o Jorge na minha cabeça. – Confessou o jovem. Você anda se inspirando nele para o seu livro, né? – Observou a mulher emocionada, ainda aos prantos. Ela deixou o livro, ainda aberto, no chão e conduzia o jovem para o quarto. Mudança de planos, em vez de irem no bar, eles foram fazer amor, celebrando o mistério de Jorge L. Guimarães.

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Amizade de ouro

Por Diogo Madeira

Tal Aniel. Tal mulher. Tal pessoa de sexo feminino. Ela é uma pessoa incomparável. Ela não é muito exposta à sociedade em razões da sua timidez (de acordo com ela). Leitora ávida, ela lê muitos livros e abastece suas ideias para o seu blog. Ela dirige, porém, sem paciência. Quando cheira engarrafamento, ela vai de ônibus para evitar o possível acidente, já que a impaciência a persegue desde que ela nasceu. Ela tem diploma de mestre. A sua dissertação fala sobre a existência das bruxas no Rio azul. Agradada, a banca examinadora sugere que ela a publique numa revista científica. Mas que ela ainda não publica por conta da preguiça (a melhor companheira da Aniel). O seu objeto preferido da casa é a sua poltrona, para dormir e ler um bom livro. Curiosamente, ela dorme com frequência na sua poltrona do que na sua cama. Segundo ela, a poltrona traz sonhos.  E a cama, ao contrário, só pesadelos. O seu dia a dia é muito agitado. Ela fica fora da casa a maior parte do tempo, ou seja, ela não sabe como ficar em casa por muito tempo. Talvez falta de hábito. Ela coleciona os filmes do Woody Allen e os livros do mesmo autor. No ponto de vista dela, o Allen é o único que tem capacidade de seduzir as  mulheres. Entretanto, não somente a sedução, a inteligência dele também acrescenta muito em mulheres. A exemplo de que a Diane Keaton que foi namorada dele faz sucesso na sua carreira de atriz graças ao Allen. Aniel não pensa em ser atriz, visto que ela não possui habilidades teatrais. Ela tem talento: caçar erros gramaticais em artigos e livros. Ela é formada em Letras. A paixão pela leitura a levou a esse curso. Além de craque em correção de textos, ela é insone, vive brigando com o sono. Mesmo com o parceiro na hora de fazer amor, conforme a revista científica afirma que a vida sexual faz a pessoa sentir sono, porém, a própria Aniel não. Uma baita estranheza. Mas ela está acostumada com a falta de sono. Ela é uma mera mulher como qualquer mulher, só que a sua inteligência é apreciável (pouquíssimas pessoas conseguem identifica-la). No dia do encontro com o seu amigo que ela não vê faz muito tempo, o encontro foi providenciado por eles através do facebook, a rede social imbatível nos últimos tempos. O encontro aconteceu na avenida mais movimentada, Dona Girafa. O seu amigo chegou primeiro e depois ela. Mas ele sabia que ela chegaria atrasada devido à longa distância. Eles foram ao restaurante para saciar o estômago. Depois trocaram os presentes alternativos, por fato de eles serem aficionados por literatura e cinema. Eles se conheceram na internet. A amizade deles completa cinco anos.  Eles se entendem muito bem quando se trata de assuntos complicados. A ideia do relacionamento, eles não cogitam, ou seja, não pensam nisto mesmo eles têm se correspondido com frequência. No restaurante, depois do desjejum, eles ficaram conversando até a lua entrar no lugar do sol – os restaurantes fecham à meia noite no Rio azul. Eles se despediram e tomaram caminhos diferentes. Ela foi à zona terrestre e ele à aquática. Eles pintaram uma amizade tão bonita. A amizade vale mais ouro que o dinheiro vivo.

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Defender a cultura surda o tempo todo é impossível

Por Diogo Madeira

Resolvo escrever um texto indignante por intermédio das críticas que eu recebi ultimamente por não defender a cultura surda cuja questão peculiar – para quem aprecia em algumas comunidades divergentes quando os militantes foram insultados pelos opostos. É uma espécie de guerra disputando pela terra.  Mas que ela se considera uma das minhas outras culturas, digo, faz parte da minha multiculturalidade. Eu a (cultura surda) tenho, porém, não prioritariamente. Não é pertinente que eu diga a todos que a minha é surda. O meu passatempo é conhecer culturas diferentes, ao menos. Existem tipos de círculo de amigos diferentes. Há algumas pessoas que não gostem da cultura dos geeks. Mas eu tenho apreço por ela. Ninguém é obrigado a assimilar essa. A questão de comunicação cuja posição eu trato como uma reflexão séria, uma vez que eu creio que a comunicação exige entrosamento entre emissor e receptor na formação da mensagem. Eu me pergunto: a ordem cultural deve ser prática? Ou as culturas devem estar no mesmo nível? A outra coisa que me deixa entusiasmado é a cultura surda voltar a ser questionada conceitualmente a ponto de se redefinir por conta das desavenças em comunidades relacionadas com a surdez. Trata-se de revisão conceitual. Pois o conceito de cultura é complexo e também é definido de acordo com a área pertencente a quem atua. Quem é dono da razão? Talvez não exista essa função. Porque a antropologia fala outra coisa acerca da cultura e a educação outra coisa. Aí o conceito de cultura surda acaba sendo indefinido e revisado. E vêem as outras questões intrigas: etnocídio; extinção cultural; linguística cultural. Expressões agressivas (eu entendo) em momentos errados, ou seja, em discussões desnecessárias. Dentre elas que foram mencionadas constantemente para deixar as chamas acesas em campos relacionados com a surdez.  No sentido antropológico, a cultura se vê como uma representação civil, simplesmente. A despeito disso, reitero mais uma vez, a cultura surda deve ser revisada conceitualmente a fim de pôr o fim de vez nas brigas intermináveis Sou um jornalista, ou seja, defensor da verdade. Assim como o V de Vingança (sujeito anarquista que usa máscara do símbolo do teatro para cobrir o rosto). Devo lhes dizer que naquele momento em que eu não defendi a cultura surda (eles acharam que eu não defendi, mas eu estava defendendo) quando a discussão estava ficando feia porque constatei uma razão que os opostos expressaram e aí optei por mudar de direção para mostrar que eu era apenas um participante, trocando ideias com todo mundo (sendo do meu lado e do oposto) a ponto de ganhar pontinhos para meus neurônios. Para isso, pretendo entrar para o mestrado em antropologia (a minha futura orientadora sugeriu devido à minha proposta científica). Torcem por mim.

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Liga em alusão à Chloe

Mergulhado no passado, o jovem chamado Paulo Mattos aprecia pela janela a vista do mar depois de dar pausa ao seu trabalho preso à máquina de escrever. Ele é fanático por série chamada Smallville, que narra a história de um jovem chamado Clark Kent que está em busca de respostas sobre dominar seus poderes. Que coincidência, ele diz, a tal personagem que vive andando com o jovem kriptoniano, Chloe, uma mulher loira, lhe lembra da sua amiga pelo semblante e sorriso incomparável. A sua amiga atualmente mora numa cidade bem distante da sua, ou seja, a 200 km de onde ele está. Pois ela foi chamada do concurso para exercer a função de assessora de imprensa. Ela chama-se Liga. Há tanta comparação entre ela e a personagem: ambas elas têm paixão pelo jornalismo e possuem habilidade de escrever de forma rebuscada. Ele não se esquece do que ela disse a ele acerca de um jovem que estudava jornalismo com eles: sabe, Paulo, aquele cara é muito arrogante. Quanto ao dar oi a alguém como nós, para ele, é um cumprimento muito raro. Adoro a ver falar dessa maneira, ele diz a si próprio. Ele ainda se lembra de que em outra ocasião ela havia comentado do tal lance com ele: acho que você foi taxativo em relação à importância da flexibilidade quando se trata da música durante a reunião acadêmica. Taxativo. Palavra perfeita para quando alguém esteja em momento conturbado. Ela sabe administrar palavras a serem abastecidas na hora certa, ele pondera. Ele não tem visto ela desde a formatura dela, no entanto, ele sabe que a oportunidade de reencontro vai chegar no instante certo. O sol está se pondo. Vou voltar à máquina de escrever. Preciso terminar aquele trabalho. Senão o meu editor vai me demitir, ele pensa.

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Horário de verão no momento errado

Foi uma madrugada infeliz para o Albert Einstein, muito decepcionado por cometer um erro imperdoável. Talvez fosse a primeira vez de gosto de pouco açúcar que o pobre tinha tomado.

Ele era estudante de Letras. Curso superior à distância. O jovem precisava estar presente duas vezes por mês na UFSM em Santa Maria-RS para assistir
às aulas presenciais junto com os demais.

O jeito dele era totalmente esquisito porque gostava de fazer o contrário, talvez fosse a mania dele por motivos de não gostar de fazer algo convencional.

Num dia quinze de fevereiro de dois mil e oito anos, numa noite brasa, o estudante universitário estava jantando arroz com camarão com os amigos que sejam dele e da mãe dele também. Segundo ele, foi a melhor janta deste ano, até o pensamento dele concordou – como se ele estivesse conversando com a sua consciência, sem saber que seja do anjo ou demônio – também.

Depois de altos papos com os amigos de parentesco duplo, eles foram embora para casa. E ele sentou no seu micro, ligando o MSN, o Chat mais usado pelas pessoas, e acessar mais outros sites como o do Orkut. Uma coisa ruim para ele: teve um desentendimento jamais ocorrido com a sua querida por não gostar do post que ele havia postado no blog, no qual costumava escrever suas idéias extremamente loucas. Ainda bem que esse mundo é um baita louco, enfrentando a revolução humana, os pontos discordantes, e até desconhecendo alguns fatos raramente tendo aparecido.

Já o clima dele não estava legal, por questões reais, de problemas no blog, de falta de carinho virtual a sua querida, de inúmeros motivos. Exausto, ele desligou o seu micro e foi dormir. Entretanto, dormiu apenas duas horas e se levantou da cama. Desse jeito, ele estava tomando café, bem calmo.

A mãe dele acordou e indagou a ele:

- Não está vendo a hora? – Alertou ela.

- Acabou o horário de verão, mãe. – Se defendeu ele, calmo.

Minutos depois, ele pegou um táxi até o posto e encontrou seus amigos para viajar para Santa Maria, no entanto, eles o olhavam de jeito estranho:

- Albert, por que chegou aqui tão tarde? A van não chegou, por surgir um imprevisto estranho nas últimas horas e achávamos que você não viria por este motivo. – Questionou um dos seus amigos.

Foi ele que pagou o maior mico. Mesmo errou ao mandar o horário de verão embora em momento errado.

Um dos seus amigos fez uma provocação a ele:

- Amigo, hoje é sábado ou domingo? – Perguntou ele.

O pobre Albert estava sem palavras e foi embora para casa. Como o fato de ele ser gênio da física, não sabia que o modo de se atrever era uma má companhia pra ele.

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Quem é Jorge Sérgio L. Guimarães?

Por Diogo Madeira

 

A metade geográfica do nosso Brasil não faz ideia de quem é Jorge Sérgio L. Guimarães e a outra sabe que ele escrevia crônicas para o jornal O Globo nos anos 50. Sobre o quê ele produzia artigos? Sobre as suas vivências. E a sua surdez. Eu posso afirmar que ele é muito misterioso para mim porque realizei pesquisas intensas no Google para obter informações sobre ele e não achei nada dele. Vou ser franco com vocês que atuam na área da surdez, os escritos dele me encantaram. O que ele escreveu é extraordinariamente admirável e ele chegou a me ‘hipnotizar’ em algumas crônicas. Em outro momento eu conversei com a minha amiga acerca do escritor que eu li, aí ela considerou ele como o misterioso surdo de 1961 – o livro foi lançado no mesmo ano e por sinal não teve grande repercussão nesta época e ainda não descobrimos o motivo do insucesso. É só questão de tempo. A despeito disso, eu comentei do livro que li com empolgação para ela que é doutoranda em lingüística, a qual eu admiro muito desde que nós nos conhecemos. De forma carinhosa, combinei com ela que eu darei uma cópia do meu livro, para acabar com a curiosidade que a está matando depois de falar do referido que deixara a minha amiga faceira. A conversa que eu havia com ela há pouco tempo me parecia empolgante porque nós interagimos sobre as novidades que aconteceram em nós nos últimos dias. Pois as nossas idéias são mútuas por nós termos o mesmo gosto pela leitura. O livro que eu li se chama ‘Até onde o surdo vai’. É raro para ser achado, eu diria. Foi um árduo trabalho para eu conseguí-lo por meio do site denominado Estante Virtual, uma rede de sebos. Ontem ele chegou na minha casa, em forma de carta simples – por mais que me surpreendesse, ele chegou de São Paulo à minha cidade em três dias. As folhas do livro são amareladas devido à ação do tempo, no entanto, o que me deixa mais empolgado ainda é a forma original como o livro é. A minha conclusão franca é que este livro que escritor surdo escreve é melhor por questões de conteúdo que eu já li, embora ele destacasse o método oralista em algumas crônicas, deixo que claro que não podemos culpar a época dele. O que importa, no meu ponto de vista, é que o escritor que lançou esse livro se sentia bem com o que pensava na hora de produção textual. Não tem como se segurar para não lhes deixar embaraçados. De alguma maneira eu também não me calaria. No livro ele falava um pouco de sua vida. Ele era funcionário do ministério da fazenda. Ele ainda destacava o empenho de sua mãe que o levara a aprender a falar e a ler nos lábios. Contudo, pouca coisa que ele abasteceu no seu livro. A pergunta me cutuca, ou melhor, nos toca: será que ele fez faculdade? De quê? Eu acredito que a sua origem acadêmica está longe de ser descoberta, por falta de dados. Mesmo que me pareça misterioso esse sujeito, não vou olvidar o que li regozijamente.

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Treino

Por Diogo Madeira

Acordei. Via várias folhas escritas penduradas em objetos na volta da casa. Cada folha exibia palavra. Letras maiúsculas. Letras minúsculas. Letras em preto. As letras pareciam-me femininas. Ah, já entendi. Já entendi. Era uma espécie de aula. Aula mesmo. Tratava-se de interação escrita. Mesmo ainda não fui à escola, a razão era eu ser pequeno demais. A folha se lia, em letras maiúsculas: TELEVISÃO. TELEVISÃO, eu pensava. E dizia a si mesmo. A outra se via: BANHEIRO. PORTA. SOFÁ. JANELA. PIA. CHUVEIROMESA. CADEIRA. TAPETE. CAMA. GELADEIRA. BOLA. CHINELO. SAPATO. TÊNIS. MEIA. BLUSA. CAMISA. TOALHA. Depois de decorar as inúmeras palavras, fui me inteirar ao mundo dos quadrinhos; navegava nos quadrinhos, familiarizando-me com as palavras aprendidas por intermédio dos balões entre os elementos: MICKEY, VIU O CORONEL? Perguntou o Pateta. NÃO, POR QUÊ? Respondeu o Mickey. De vários super-heróis eu lia gibis. Superman. Eu sabia que ele era mais forte e voava como pássaro. Para evitar consequências, fui informado pela minha mãe de que ele existia somente nos quadrinhos. Homem-Aranha que eu o admirava escalando pelos prédios altos. A minha mãe me alertava que eu não deveria pegar aranha de verdade. A Turma da Mônica, eu sabia tudo da turma tão querida. As minhas idas para a escola quando eu estava na idade adequada para poder estudar, sempre levava gibis comigo para ler na hora do recreio. Meus colegas me olhavam lendo meus gibis e eles, por sinal, desconheciam o que eu lia. E a um colega eu emprestava um dos meus gibis. Depois de alguns minutos, ele me devolveu meu gibi e dizia confusamente, coisas que eu não entendia. Todavia, a única coisa que eu entendi era que ele não fazia ideia do que era um gibi. Tudo o que nós interagíamos era tão desentrosado linguisticamente. Ao reconhecer os limites dos meus colegas, o que me deixava feliz era brincar sem complicações com eles. Normalmente, eu levava meus gibis para algum lugar ou eu visitava a casa de amigo da minha mãe perguntando se tinha algum gibi para eu ler. O gibi se tornara minha referência para entender o mundo além de eu estar inserido à sociedade e nem a primeira escola em que eu estudava me ajudara o suficiente. Depois de mais um treino de decoração de vocabulários, fui pra cama ler meu gibi que a minha mãe comprou para mim. Amanhã haverá mais um treino, a minha mãe me avisava antes de dar boa noite.


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